Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Publicação Predatória (ou Parasita?)

O título refere-se à tradução de uma matéria cujo título original é:  Predatory Publishing. Matéria publicada no sítio: The Scientist: Exploring Life, Inspiring Innovation, por Jeffrey Beall.

Jeffrey Beall é um bibliotecário especialista em metadados da Biblioteca Auraria da University of Colorado Denver. Leia mais sobre a edição acadêmica de acesso livre em seu blog: Scholarly Open Access.

Essa matéria tem como subtítulo, a frase: Os defensores, excessivamente zelosos, do acesso livre, estão criando um ambiente de exploração, ameaçando a credibilidade da publicação acadêmica ou científica. Aliás, é bom que se diga, isto já aconteceu também aqui no Brasil, veja post  publicado, nete blog, no início de 2012 mas, aparentemente, dentro de um outro contexto. Outro fato a se considerar, ao ler este post é que logo no início do movimento do Open Access,  Stevan Harnad já havia alertado a comunidade indicando que a melhor estratégia era a da via Verde e que a via Dourada ainda carecia de um amadurecimento. A matéria objeto deste post é uma comprovação do alerta dado por Harnad.

Segue a tradução da matéria:

“Uma grande revolução vem ocorrendo na publicação acadêmica. Nos últimos 10 anos, pesquisadores, acadêmicos, bibliotecários, especialmente aqueles provenientes da ou atuantes na academia, universitários e institutos de pesquisa vêm promovendo o livre acesso às publicações acadêmicas, e agora  começam a aparecer os resultados dessas iniciativas que, infelizmente, estão, ainda, muito abaixo das expectativas da comunidade científica.

Um dos resultados é que o movimento do acesso livre está provocando um aumento repentino no número de editores acadêmicos de revistas de acesso livre, motivados  por uma barreira muito pequena  que viabiliza  a sua entrada no mercado editorial.  Para se tornar um editor acadêmico, tudo que você precisa fazer e ter agora, é um computador, um sítio web, e a capacidade de criar títulos, inéditos, de publicações periódicas científicas.

Essa tendência é reforçada pela  chamada  estratégia da via Dourada do modelo Open Acess (OA), em que a publicação científica é mantida,  não por meio das suas assinaturas, mas por intermédio das taxas de autor. Para quem não sabe, essas taxas de autor são também denominadas de taxas de processamento de artigos, mecanismo adotado por editores de revistas científicas OA para promover a revisão dos artigos submetidos.  Um exemplo desse tipo de publicação é a revista The Scientific World Journal, atualmente publicada por uma iniciativa denominada  CAIRO, mantida  por Hindawi Publishing Corporation. Essa mega-editora é responsável pela edição de publicações em,  praticamente,  todas as áreas do conhecimento científico e cobra uma taxa de processamento de artigos, no valor de US $ 1.000 para cada artigo aceito. Da mesma forma, a Public Library of Science, também conhecida como  PLoS,  cobra de  autores, provenientes de qualquer lugar do planeta, um valor que varia, na faixa de  R$ 2.700 a  R$ 5.800 para  publicar um artigo, no caso em que  o pesquisador seja filiado a uma universidade, membro institucional ligada a essa editora, ele pode obter descontos na submissão à essas revistas.

Este aumento no número de publicações de acesso livre tem sérias implicações para a publicação acadêmica. O fato de autores tornarem-se  clientes dos editores,  pode provocar um conflito de interesses:  quanto mais uma editora aceita artigos,  maior receita ela terá.

Sem qualquer surpresa, o nível de aceitação de artigos, por parte de revistas que adotam esse modelo de negócio, está subindo rapidamente, enquanto o pagamento pela avaliação paga aos pares pela revisão de artigos está diminuindo. A comunicação científica está, agora, sendo inundada, anualmente,  com centenas de milhares de novos  artigos, em sua grande maioria considerados de segunda categoria, sobrecarregando os pesquisadores conscientes que se vêem obrigados a filtrá-los, por conta própria.

A crescente exploração dessa tendência, é definida como o surgimento de editores  predadores ou “parasitas”?  – aqueles que exploram, de forma não profissional, o modelo da via Dourada do OA com fins de obtenção de lucros para si próprios. Esses editores usam de armadilhas para enganar os pesquisadores, induzindo-os à submeter seu trabalho para, em seguida, cobrá-los para publicar o seu trabalho. Algumas presas, especialmente os estudantes júniors na faculdade e estudantes de pós-graduação, que são bombardeados por meio do envio de e-mails spam (“solicitações”). A partir da colheita de dados de sítios de editoras legítimas, eles enviam mensagens spam personalizadas, atraindo pesquisadores, por meio de elogios a seus trabalhos anteriores e, convites para apresentar um novo manuscrito. Muitos desses falsos editores afirmam, falsamente, impor revisão por pares rigorosos, mas parece que eles rotineiramente publicam manuscritos após o recebimento da taxa de autor. Alguns acrescentam nomes para os seus conselhos editoriais, sem, mesmo, obter previamente a permissão dos cientistas, incluídos, nesses conselhos, entre outras práticas antiéticas.

Os sítios web dessas editoras parecem legítimos, o que torna difícil separar o profissional do “não-profissional” ou antiético. Infelizmente, muitos cientistas foram enganados. Dezenas perguntaram-me se havia alguma medida para determinar a legitimidade mas, há muito pouco que possa ser determinado  diretamente. A única medida é a real intenção da editora, o que é difícil ou impossível de se discernir.

As implicações do mandato e promoção são significativas. As editoras tradicionais desempenharam, previamente, o papel de validação: se um artigo apareceu em uma revista científica publicada por uma editora respeitada, no geral, alguém o aceitou como um trabalho de qualidade, digno de ser publicado. Agora, as chamadas editoras parasitas atribuem títulos elevados a suas revistas, tornando a tarefa de avaliar uma lista de publicações, muito mais complicada. Infelizmente, alguns acadêmicos fazem o jogo do novo sistema, explorando a vaidade acadêmica para comprar prestígio.

Os editores parasitas do acesso livre ameaçam apagar a linha que divide a ciência da não-ciência. Ao aceitar artigos pseudocientíficos, que parecem legítimos mas, cujas metodologias são ineficientes, os falsos editores, gratuitamente, conferem a sanção da ciência. Se essa tendência continuar, podemos perder a habilidade de distinguir a ciência real do falso.

Os problemas dessa causa dos editores “parasitas”  foram agravados por vários dos atores no movimento do acesso livre. Muitos bibliotecários, pesquisadores e outros que defendem o livre acesso à publicação científica têm promovido o livre acesso às publicações acadêmicas à toda a comunidade, sem restringir a sua promoção aos poucos dignos editores de revistas OA, criando, pois, um terreno mais fértil para os editores parasitas. Bibliotecários e defensores do acesso livre também gastaram muito tempo e esforços e, até mesmo, denunciando o cyberbullying contra tradicionais editoras acadêmicas, uma prática que, lamentavelmente, ainda contribuiu para o crescimento de ilegítimos editores OA. Alguns até mesmo insistem em mandatos OA, regras que exigem que pesquisadores publiquem  todo o seu trabalho em locais de livre acesso, privando-os da liberdade de publicar no periódico de sua livre escolha e que serve para energizar ainda mais os editores exploradores de acesso livre.

Os entusiastas do acesso livre são muito rápidos para identificar  as  tradicionais editoras acadêmicas. Eles são, excessivamente, politizados no que diz respeito à comunicação científica, aplicando suas crenças e táticas anti-corporativistas  para  publicação  científica  convencional.  Muitos abandonaram a objetividade; ao invés de buscar o melhor modelo para a comunicação acadêmica, buscam apenas uma alternativa que se adapta às suas estreitas convicções.

Muitos defensores do acesso livre não conseguem entender ou reconhecer o valor que a alta qualidade da publicação acrescenta ao conteúdo acadêmico. Um desses valores é a preservação digital, ou a manutenção a longo prazo dos artigos de periódicos e das demais publicações. A maioria das novas editoras de acesso livre não tem estratégias de preservação à longo prazo, para operar no momento. Além disso, alguns editores, que adotaram a estratégia do acesso livre, agora ignoram o processo de edição do texto. Além de deteriorar a qualidade do artigo, estas práticas perpetuam o problema crescente do plágio, visto que essas revistas raramente utilizam ferramentas disponíveis que podem detectar a sobreposição entre trabalhos apresentados e trabalhos publicados.

Dessa forma, enquanto a revista de acesso livre  tem algumas vantagens óbvias, como a pesquisa científica disponível gratuitamente para todos que a procuram – existem muitos outros fatores a serem considerados. (Para uma discussão mais completa sobre essas considerações, consulte  “Whither Science Publishing” na pagina 32 “) A eficácia de um modelo de publicação que tenha autores, ao invés de leitores como seus clientes, ainda não foi  comprovado e existem sérios riscos à longo prazo. A comunicação científica precisa de uma análise mais imparcial e menos ideológica. O modelo de publicação que devemos deixar à próxima geração de pesquisadores precisa ser o melhor, e não necessariamente um ideológicamente correto.”

fevereiro 18, 2013 Posted by | artigo | , , , , , , | Deixe um comentário

Open Access no Reino Unido: causas e estratégias

Richard Poynder

No último dia 01 de Outubro, Richard Poynder publicou em seu blog Open and Shut? um longo post onde faz uma longa consideração sobre a problemática das assinaturas de periódicos científicos no Reino Unido, soluções propostas pelos editores e o surgimento das estratégias do Open Access.  Devido ao fato do post ser demasiadamente longo, optei por publicar a sua tradução em partes separadas. Segue a primeira parte:

“O sistema de comunicação científica tem enfrentado sérias dificuldades nas últimas décadas, um problema geralmente conhecido como a “crise dos periódicos”. O cerne da questão é que o preço das revistas científicas tem aumentado consistentemente mais rápido que o índice de preços ao consumidor. Bibliotecas de universidades  e  centros de pesquisa vêm encontrando dificuldades cada vez maiores para adquirir e manter as as assinaturas de todas as revistas de que os seus pesquisadores precisam.

No início de 1990, os editores se encontraram em uma situação onde cada vez que preço de uma revista aumentava eles se viam confrontados com uma onda de cancelamentos. Em uma tentativa de recuperar a receita perdida aumentavam o preço, novamente, o que simplesmente desencadeava uma nova onda de cancelamentos.

Consciente de que a sua sobrevivência estava ameaçada, as editoras buscaram uma maneira de manter os seus assinantes e acabou chegando ao que ficou conhecido como o “Big Deal”.

Com o “Big Deal”, essas bibliotecas não assinavam as revistas título a título, mas sim um conjunto pré-determinado de revistas eletrônicas, a cujos contratos tinham validade por vários anos. Normalmente esse pacote é constituído de todo o portfólio da editora, que pode incluir centenas de títulos de revistas.

O atrativo do “Big Deal”,  para os editores,  era que, com esse tipo de contrato, havia o comprometimento de acabar com o ciclo anual de cancelamento. Para bibliotecas, esse tipo de contrato  forneceu o acesso a um número muito maior de títulos pelo mesmo preço que estava pagando por um conjunto menor de títulos – uma vez que assinou-se o pacote inteiro e, além disso, um contrato que abrangia vários anos. Para autores, isto proporcionou um público maior e mais estável aos seus artigos.

A Academic Press foi pioneira, em 1996, quando assinou um contrato nesses termos, “Big Deal”, por três anos com a Higher Education  Funding Council for England (HEFCE). O acordo significa que qualquer pessoa que trabalhasse e uma instituição de ensino superior (Higher Education) no Reino Unido tem franco acesso a um ponto de acesso à revista inteira da referida esitora (Academic Press). Além disso, uma vez que foi HEFCE que pagou a conta (por meio da corte superior), o acordo trouxe o benefício adicional de aliviar a pressão sobre os orçamentos das, duramente, pressionadas bibliotecas de pesquisa do Reino Unido.

O padrão

Depois de algum ceticismo inicial, outras editoras começaram a oferecer seus próprios pacotes “Big Deal”, e o modelo, em breve, tornou-se a forma padrão em que bibliotecas de pesquisa adquiriam o acesso a revistas acadêmicas.

No entanto, enquanto conceito básico da AP foi copiado, mais subseqüentes grandes negócios não foram assinados com organismos de financiamento nacionais, mas com consórcios de bibliotecas. E uma vez que os custos não foram top cortado, isso significava que as bibliotecas tiveram que financiar seus contratos “Big Deal” a partir de seus próprios orçamentos.

Logo tornou-se evidente, portanto, que o Big Deal não conseguiu resolver o problema fundamental da acessibilidade que está no coração da “crise dos periódicos”. E, como carteiras de editores de revistas tem cada vez maior como resultado da consolidação da indústria, os contratos  “Big Deal” começaram a devorar uma porção cada vez maior do orçamento de uma biblioteca. Como conseqüência, o “Big Deal” gradualmente caiu em desgraça, com bibliotecários reclamando que, como qualquer modelo de assinatura do jornal, o “Big Deal” é por sua natureza monopolista, e ele bloqueia bibliotecas em um sistema caro e inflexível que eles só podem se livrar com grande dificuldade.

Desejosos de encontrar uma abordagem alternativa, a comunidade científica começou a ter um interesse no movimento Open Access (OA). Se os artigos fossem disponibilizados gratuitamente na internet, eles entenderam, não somente os pesquisadores teriam acesso a tudo o que precisavam, mas o auto-arquivo (ou, como ficou conhecido mais tarde, a estratégia da via Verde) poderia aliviar o problema, a acessibilidade, permitindo às bibliotecas iniciar o cancelamento de algumas de suas assinaturas de revistas. Com este objetivo em mente, os defensores da estratégia da via Verde convocaram os pesquisadores a tornar os seus trabalhos disponíveis na web (e mais tarde em repositórios institucionais).

Além disso, uma nova geração de editores – por exemplo BioMed Central (BMC) e Public Library of Science (PLoS) – entrou no mercado oferecendo-se  para tornar os artigos acessíveis, livremente, aos pesquisadores  como uma parte essencial do processo de publicação, com a condição de que eles pagassem uma taxa de processamento de artigo (APC). Isto mais tarde, tornou-se conhecido como a estratégia da via Dourada do movimento OA.

Na crença de que o modelo autor-paga levaria a baixar os custos de publicação, a bibliotecas começaram a persuadir os pesquisadores a abraçar a estratégia da via Dourada do movimento OA.  E para ajudá-los nisso, eles concordaram em usar parte do orçamento de algumas das assinaturas de seus periódicos para se filiar a esquemas que as editoras que adotaram a via Dourada do OA, como BioMed Central e Springer começaram a oferecer. Estes esquemas possibilitaram aos pesquisadores o direito de publicar em revistas OA sem ter que pagar pela publicação de um artigo.

A crença de que a publicação OA levaria a custos mais baixos se baseavam em duas suposições: primeiro, que a publicação eletrônica era inerentemente menos cara que a tradicional publicação impressa; segundo, que ela imporia restrição de preços aos editores. O pensamento que estava por trás dessas suposições era: com relação às assinaturas de periódicos científicos, não são os pesquisadores que pagam a conta mas, os bibliotecários. Consequentemente, os pesquisadores não devem se preocupar com o custo das revistas científicas, mas simplesmente solicitar os títulos que eles necessitam, independentemente, do custo que as bibliotecas terão que pagar para tê-los.  Desde que, o seu trabalho é servir às necessidades de informação dos pesquisadores, os bibliotecários sentem que eles teriam que pagar.  Em outras palavras,  há uma desconexão no seio  do modelo de assinaturas de periódicos.

Além disso, uma vez que todos os artigos em uma revista científica são únicos, os bibliotecários não estão em uma posição de poder substituir um título caro para um mais barato. Portanto, há uma enorme pressão sobre as bibliotecas para que sejam assinadas todas as revistas publicadas nas várias áreas da pesquisa em que a ação a instituição atua.”

Evidentemente, aqui no Brasil os nossos pesquisadores, aparentemente, ainda não se depararam com tal situação graças ao Portal de Periódicos da Capes que tem mantido as assinaturas dos periódicos alí disponibilizados. Será que teremos, eternamente, orçamentos capazes de bancar o referido portal?

outubro 7, 2012 Posted by | artigo | , , , , , , , , , , , | Deixe um comentário

   

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