Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Vejam o que acontece quando não se tem políticas públicas

Este blog trata do Open Access, do acesso livre ou do acesso aberto, mas não se limita a este tema. Por isto, resolvi postar uma matéria diferente hoje. O que vou relatar é resultado da falta de políticas públicas. Na realidade, trata-se da “Moção de protesto contra o descarte de bens patrimoniais pela Biblioteca Pública Pelotense”. Este é mais um registro do descuido das nossas autoridades para com a coisa pública e que é provocada basicamente pela falta de políticas públicas, pela falta de políticas que valorizem os bens públicos. Afinal, a informação parece não ter mesmo nenhum valor para as nossas autoridades. Elas vêem apenas cifrões à sua frente. Realmente, fatos como este não me causa nenhuma surpresa, pois, se os atores eresponsáveis pelos mensalões do PT e do DEM até hoje não foram punidos, alguém irá se incomodar com a nossa memória? Agora vejam o triste caso de Pelotas.

“Há pouco mais de 15 dias, em fim de abril/início de maio, a cidade de Pelotas, que até agora tinha se caracterizado por buscar a preservação da história e da cultura foi palco de uma situação completamente absurda e injustificável: a direção de sua Biblioteca Pública, que é gerida por uma associação privada, simplesmente enviou para reciclagem, uma parte importante da história da cidade, da região e do país! Livros, jornais, Diários Oficiais, monografias e documentos impressos (não se sabe exatamente o total do que foi descartado, nem quem definiu o que seria jogado fora), mas enfim, o suficiente para encher mais de um caminhão pequeno, foi enviado para recicladores. E só não foi parar no lixo mesmo porque, num episódio rocambolesco e pouco explicado, foi “salvo” por um dono de sebo, que imediatamente comprou o “lixo” e o pôs a venda como uma mercadoria qualquer. Ou melhor, uma mercadoria de alto valor, já que há um mercado de colecionadores sempre interessado nessas obras.

Alguns desses exemplares ainda se encontram em sebos da cidade, o que pode ser verificado em fotos postadas no twitter. Entre eles, por exemplo, uma das únicas, senão a única coleção do jornal A Federação do ano de 1904. Vários outros anos inteiros deste jornal também foram literalmente jogados fora, sob a justificativa de “estarem duplicados”. Mas a catástrofe cultural vai muito além, pois todos os jornais encadernados, que eram duplos, e que se encontravam no porão da biblioteca, como os jornais Correio Mercantil, Opinião Pública, Diário Popular, também tiveram o mesmo fim. Estes são alguns dos jornais pelotenses mais importantes do XIX e XX séculos, e ficamos agora reduzidos apenas a sua coleção em uso, e cuja digitalização tem sido protelada por interferência direta da própria diretoria. E o que se fará quando estes jornais, pelo uso, se desmancharem? Chorar, pelo visto? Muito mais que isto: privar as gerações atuais e futuras dos mecanismos sociais, no caso, a documentação escrita, que vinculam sua memória às gerações passadas.

O raciocínio simplista e redutor de que “eram duplos” e poderiam ser descartados, não convence ninguém, pois todos podem se perguntar por que não foram trocados com instituições congêneres, ou doados para outra instituição, como reza seu estatuto de 1991, que em seu artigo segundo, item b), diz que a biblioteca “poderá permutar livros e objetos com outras instituições que estejam de acordo com as suas finalidades”.Quanto a alguns estarem em mau estado, uma Biblioteca moderna certamente conhece a existência de várias técnicas de recuperação de documentos que podem ser utilizadas desde que haja o empenho de realizar os trâmites para busca de financiamento público ou privado nas diferentes fontes disponíveis.

Esta mensagem, além de denunciar este fato, pretende provocar uma decidida ação por parte não só da comunidade técnica e acadêmica interessada na preservação da história do país, mas dos próprios pelotenses, que até agora, apesar de indignados e estupefatos, estão assistindo esta situação em silêncio, um silêncio que pode passar por aprovação ou desinteresse e gerar a reincidência de atitudes como esta! Entendendo-se que o direito à memória é um direito de todos os cidadãos e que a proteção e guarda de um bem patrimonial é dever de um Estado democrático, considera-se inadmissível que uma política arbitrária de descarte seja praticada justamente por uma instituição destinada a preservação da memória e divulgação da cultura.

Lembramos que cabe ao Estado por em prática políticas de preservação, acesso e controle sobre acervos que possam ter valor histórico e patrimonial, especialmente de caráter municipal ou privado, ou de órgãos específicos, para que se consiga atenuar a perda progressiva de documentos e objetos referentes a herança histórica e patrimonial do país. ”

Assim, convido a todos aqueles que não estão de acordo com o estágio em que se encontra a nossa memória, em geral, e os nossos acervos informacionais, a assinarem este abaixo assinado constante.

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maio 27, 2011 Posted by | Sem categoria | , | 2 Comentários

   

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