Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Open Access: novas ações provenientes dos editores no Reino Unido

Antes de concluir o penúltimo post, a tradução da matéria produzida por Richard Poynder, assinalava:

“Além disso, uma vez que todos os artigos em uma revista científica são únicos, os bibliotecários não estão em uma posição de poder substituir um título caro por  um mais barato. Portanto, há uma enorme pressão sobre as bibliotecas para que sejam assinadas todas as revistas publicadas nas várias áreas da pesquisa em que a instituição atua.”

Essa matéria continua, conforme segue abaixo:

“Por outro lado, os defensores do OA argumentam, com a solução autor-paga adotada pelas editoras que adotaram a estratégia da via Dourada, a decisão de compra é feita pelos pesquisadores, não por um intermediário. E, desde que os autores são capazes de publicar em uma variedade de revistas científicas, eles podem procurar por aí (ou seja, as revistas são substituíveis, e os autores podem – e irão – ao tomar a decisão de compra).

Mas, havia uma mosca na sopa. Como o “Big Deal”, as assinaturas OA são realizadas por intermediários provenientes da classe bibliotecária, de modo que existe uma desconexão no modelo de assinaturas, que muitas vezes continua a existir com a publicação OA. Os modelos de assinatura também tendem a empurrar os autores na direção dos editores que já mantêm contrato com as suas bibliotecas,  o que limita a escolha. 

Além disso, um crescente número de universidades estão criando fundos destinados a subsidiar as publicações de autores interessados em publicar por meio da estratégia da via Dourada. Novamente, a conta não será paga pelo intermediário, não pelo autor. Importante, o recurso não vem do orçamento de pesquisa do autor, então é improvável que o preço seja um fator decisivo quando um autor procura por um periódico OA no qual deseja publicar.

Prioridades

Não é novidade, quando o auto-arquivamento decolou, os  editores logo concluíram que isto representava uma séria ameaça para as suas receitas. E eles responderam de duas maneiras

Primeiro, eles insistiram no embargo ao auto-arquivamento. Exigiram que os pesquisadores esperassen antes de tornar uma cópia de seu artigo disponível gratuitamente na Web – geralmente de 12 meses ou mais.

Segundo, os editores científicos começaram a adotar o OA híbrido. Isso permitiu aos autores publicar seus seus artigos em revistas que se tornaram OA – mas, novamente, mediante o pagamento de um APC. Embora, em teoria, a estratégia OA híbrido não seja diferente da estratégia da via Dourada  (ambos tornam trabalhos livremente disponíveis mediante  o pagamento de um APC), é, geralmente, mais cara do que publicar em revistas que adotam a via Dourada pura. Mais precisamente, o OA híbrido permite aos editores o “double dip” – ou seja, obter receitas, por meio de, ambos os mecanismos,  tanto com os APCs quanto com as assinaturas.

Como as publicações OA vem se desenvolvendo, portanto, espera-se que isto revelará algo mais provável para restringir os preços do que a evaporação dos preços das assinaturas das publicações.   Além disso, para a frustração dos defensores do OA, a quantidade dessas publicações tem crescido muito lentamente. Hoje, apenas cerca de 24% dos resultados das pesquisas, em todo o mundo, são publicadas em revistas OA (35% no Reino Unido), e o crescimento tem se realizado a uma taxa de apenas 1-2% ao ano.

Deve-se também observar que – à exceção da área  biomédica – a quantidade de artigos científicos que são disponibilizados por meio do Acesso Livre, da via Verde do OA é da ordem de 4 vezes a quantidade de artigos que são dispnibilizados por meio da via Dourada.

A comparação feita no parágrafo anterior é importante porque, apesar das vias Verde e Dourada serem vistas como as duas principais estratégias para se atingir o Acesso Livre, no Reino Unido, a mais recente progressão dos fatos indica alterar fundamentalmente esse equilíbrio.

Mais especificamente, no mês de  julho passado, no Reino Unido, o Comitê FINCH publicou um relatório que continha uma série de recomendações sobre a publicação científica/acadêmica. Mais notavelmente, ele recomendava que toda pesquisa financiada com recursos publicos, no Reino Unido, deveria estar livremente disponível em uma base OA. No entanto, ao invés de recomendar a adoção de  todas as estratégias do OA, o referido relatório concluiu que o principal mecanismo a ser adotado seria aquele conhecido por autor-paga OA – tanto para revistas da via Dourada quanto para aquelas que adotam um modelo híbrido.

Resultado, ao invés de reduzir os custos, o relatório FINCH estimou que a sua proposta necessitaria de uma receita adicional da ordem de 40-50 milhões de Libras ao ano, dos quais 38 milhões seriam necessários para pagar a taxa APC.

Não foi surpresa, o fato de muitos reagirem às recomendações FINCH com consternação.  A  queixa era a de que os custos adicionais recairiam desproporcionalmente sobre os ombros de universidades de pesquisa intensiva (nomeadamente o Grupo de Russell).

No entanto, o governo do Reino Unido aceitou a quase totalidade das recomendações FINCH e a Research Councils UK (RCUK) imediatamente publicou uma nova política OA. Esta nova política vai exigir que todos os papers resultantes de pesquisa científica , total ou parcialmente financiada pela RCUK, terá de tornar-se OA. E, como indicado pelo relatório FINCH, RCUK vai exigir que os autores priorizem a estratéga da via Dourada em detrimento da estratégia da via Verde, deixando os repositórios institucionais relegados apenas ao papel de preservação e arquivamento de dados.

Os custos adicionais desta política serão atendidos por meio de subsídios em bloco da RCUK, mas o dinheiro vai sair do orçamento da pesquisa nacional existente, de modo que não haverá dinheiro novo. Além disso, para aplacar o Grupo Russell, o governo do Reino Unido anunciou que irá fornecer um extra de £ 10 milhões.  Isso também não será dinheiro novo, mas virá das “flexibilidades” do orçamento existentes dentro da rubrica para a ciência.

Os maiores críticos do relatório FINCH / RCUK, no entanto, foram os defensores da estratégia da via Verde do OA, como Stevan Harnad, que antecipou que as assinaturas de revistas  (quem ainda publicar a maioria dos artigos revisados ​​por especialistas) vão responder à nova política por meio do  alongamento dos embargos às políticas de auto-arquivamento à ponto de não serem mais compatíveis com a política RCUK, e dizer aos autores que eles devem pagar pelo OA híbrido.

Como Harnad me disse, em Julho passado, se alguém fosse um editor, permitindo a seus autores o pagamento pela publicação de forma aderente à estratégia da via Dourada híbrida (enquanto continua a coletar seu lucro usual provenientes das assinaturas) e, de quebra,  seria aguardado até o cumprimento do embargo à via Verde (ou seja, até a data em que seus netos concluíssem o seu curso superior), para ter certeza de que seus autores paguem pela estratégia da via Dourada híbrida, ao invés de escolher a opção pelo custo-livre que se teme possa vir a representar um risco para as suas receitas de assinaturas!

O entendimento de que a estratégia da via Verd do OA será obsoleta continua. O que se sabe é que, confrontado com as crescentes críticas, o RCUK sentiu a necessidade de fazer uma série de esclarecimentos (por exemplo, aqui e ali). No entanto, recusou-se a alterar a redação de sua política, que afirma claramente que os pesquisadores devem preferir a via Dourada em detrimento da via Verde.”

Esta matéria mostra a força dos editores científicos comerciais, que contra-atacam a estratégia da via Verde do OA, preferindo articular a adoção da via Dourada junto ao governo inglês.

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outubro 12, 2012 - Posted by | artigo | , , , , , , , ,

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