Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Enquanto um gigante dorme outro busca respostas à proposta do Acesso Livre

No último dia 27 de Fevereiro, o jornalista Guy Gugliotta do New York Times publicou matéria sob o título: Gulf on Open Access to Federally Financed Research, cuja tradução poderia ser: O abismo sobre o Acesso Livre às Pesquisas Financiadas pelo Governo Federal.

Esta matéria fala sobre a percepção do Acesso Livre pelos principais atores envolvidos: pesquisadores, editores científicos.

Stevan Harnad comenta a parte final dessa matéria:

“The debate between these two extremes has been remarkably vitriolic, in part, perhaps, because neither side has been completely honest. Mr. Adler would not discuss publishers’ profit margins, and open-access advocates frequently say that the journals are low-overhead cash cows that are gouging the public. Open-access scientists, on the other hand, are less than candid about how important it is to their careers to be published in prominent traditional journals. If scientists truly wished to kill the system, all they would have to do is withhold submissions.”

“O debate entre esses dois extremos (pesquisadores e editores) tem sido notavelmente virulento, em parte, talvez, porque nenhum dos lados tem sido completamente honesto. Sr. Adler não iria discutir margens de lucro das editoras, e os defensores do acesso livre  costumam dizer que as revistas são vacas da baixa sobrecarga do caixa que exploram o público. Os pesquisadores defensores do Acesso Livre são, por outro lado, menos honestos sobre como é importante para suas carreiras publicar na mais importantes e tradicionais revistas científicas.  Se os cientistas realmente queriam matar o sistema, o que todos eles teriam que fazer é reter suas submissões.”

Stevan Harnad considera esta observação, claro, um total absurdo:

(1) Que os pesquisadores precisam publicar em revistas com alto padrão de revisão por pares não é segredo  (e não há nada a esconder ou se desculpar!)
(2) O objetivo do Acesso Livre não é “matar o sistema”, mas para fornecer Acesso Livre às pesquisas

(3) Como de costume, o falso pressuposto é o que o Acesso Livre se resume à estratégia da via Dourada (Publicações de Acesso Livre)

(4) O Acesso Livre não tem nada a ver com “propostas de retenção” ou boicote.

(5) Ambos os projetos (FRPAA e RWA) são sobre a obrigatoriedade do auto-depósito em repositórios de Acesso Livre, estratégia da via Verde.
Vale a pena escrever um artigo (ou livro) sobre como  é esse incansável mal-entendido  de algo tão incrivelmente simples e que   continua se propagando ano após ano após ano.

E parece que o Congresso americano continuará despreparado, neste ano, em relação ao projeto de lei FRPAA, dividindo com o projeto de lei RWA, em grande parte, o mesmo espírito ignorante como é característico no exemplo do  jornalismo “equilibrado” .

Portanto, mais um ano se tenta falar sobre a obrigatoriedade da estratégia da via Verde para o Acesso Livre nas universidades.

Uma coisa, porém,  o jornalista estava correto. Há certamente algo que os pesquisadores são menos  sinceros: não sobre boicotar as submissões às revistas cinetíficas, mas sobre boicotar os auto-depósitos em repositórios de Acesso Livre.

A minha percepção é a de que em alguns países, desenvolvidos, em desenvolvimento ou não desenvolvidos, os seus dirigentes se preocupam em entender o Acesso Livre, enquanto em outros não existe qualquer preocupação e nem sequer procuram entender um tema tão estratégico para o desenvolvimento da ciência e para o seu progresso.

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fevereiro 29, 2012 - Posted by | artigo | , , , , , , , ,

2 Comentários »

  1. O Stevan Harnard descreveu o “Open Access” de forma clara e objetiva, isto é, teve a coragem de dizer: –‘E fácil a solução. Basta vontade política e seriedade com a disseminação do conhecimento. Mas se isto, está atrelado a publicá-lo em revistas científicas cuja assinaturas são de alto custo e, onde vários artigos também são pagos mesmo em licença nacional como o nosso POrtal da Capes, eu te pergunto?: —Quem poderá mudar a história? São os autores e editores. É uma parceria. Quem publica, assina um autorização repassando os direitos autorais para o editor. Falar sobre conscientização neste contexto é uma ironia. Todos sabemos que pesquisa é financiada e os resultados obrigatoriamente serão divulgados. Portanto, no panorama atual, os repositórios institucionais serão ou não apenas para teses e dissertações, publicações científicas internas, palestras autorizadas? Que respaldo legal terei no Brasil, para disponibilizar os artigos científicos de pesquisadores da minha instituição? Somente se o editor da revista autorizar e, informação custa caro (expensive) portanto…. Uma sugestão: A maioria dos colegas não tem claro o que é Oppen Access. Divulga a definição, o produto autorizado e não autorizado.
    Um abraço,
    Maria Salete

    Comentário por Maria Salete Ribelatto | fevereiro 29, 2012 | Resposta

    • Prezada Maria Salete,

      Obrigado pelo seu excelente comentário, apesar de não concordar com o seu ponto de vista. Os repositórios institucionais deveriam armazenar preferencialmente os artigos científicos, ou seja, aqueles artigos publicados em revistas com revisão por pares. É importante perceber que hoje mais de 60% dos editores aceitam o auto-depósito. Não se tem notícia de nenhum caso em que um editor tenha acionado alguma universidade ou autor pelo fato de este último ter feito um depósito de artigo publicado em uma revista cujo editor não concorde com o auto-depósito. Pelo que tenho visto, tem havido um excesso de zêlo por parte das procuradorias jurídicas em exigir de forma inflexivel a autorização do editor da revista que publicou o artigo. É preciso entender que os autores são os detentores dos direitos de autoria e este ao fazer o depósito está ao mesmo tempo autorizando a disseminação do seu artigo naquele repositório. Seria necessário que a AGU, órgão que cede os procuradores jurídicos para as universidades, estabelece uma norma geral a esses procuradores. Tenho visto resoluções estabelecidas por algumas universidades mais flexíveis que em outras, ou seja, cada cabeça uma resolução específica, parece-me depender da empatia entre os procuradores e os interlocutores na universidade. Por que as coisas no Brasil funcionam diferente de outros países? Não há razão, as editoras são as mesmas. Existe sim, uma diferença cultural e esse é o grande problema. Os nossos pesquisadores ainda não entenderam as iniciativas do Acesso Livre. Por mais que se tenha conversado com os representantes dos repositórios institucionais brasileiros ainda existe um grande mal entendido e uma grande má vontade nas universidades. Os repositórios institucionais deveriam armazenar e disseminar os artigos. Os repositórios não são a memória institucional. Este é outro grande mal entendido. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

      Cordiais saudações.
      Hélio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | fevereiro 29, 2012 | Resposta


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