Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Acesso Livre: como tudo começou

Helio Kuramoto

Tenho percebido a existência de dúvidas no entendimento relacionado aos objetivos do Acesso Livre (Open Access – OA) e de suas estratégias. O contexto que fez com que o Acesso Livre (OA) efetivamente tomasse forma iniciou-se na última década do século XIX (anos 90), época em que a crise dos periódicos científicos se evidenciou pela alta excessiva dos preços das assinaturas e que provocou o cancelamento de muitos periódicos por parte de bibliotecas universitárias de várias parte do mundo e, consequentemente, estas começaram a rever as suas políticas de aquisição e muitos pesquisadores deixaram de ter acesso aos periódicos mais importantes para as suas pesquisas. Ao longo deste período diversas iniciativas alternativas foram desenvolvidas, como por exemplo, os arquivos abertos eletrônicos, desenvolvidos por Paul Ginsparg e seus colegas, dos quais se destacou o ArXiv. Foi um período difícil para os pesquisadores, mas interessante porque estes e conscientizaram do seu papel e também do fato de que seria necessário a busca de uma solução para disseminar livremente as suas descobertas científicas.

Stevan Harnad explica sobre quais os reais interesses dos pesquisadores ao publicarem os seus achados ou descobertas científicas:

Ao contrário de outros tipos de autores, que publicam seus textos em busca da obtenção de lucros, os pesquisadores publicam suas descobertas para que possam ser utilizadas, aplicadas e dar origem a outras pesquisas a serem desenvolvidas por outros pesquisadores. A carreira do pesquisador e o progresso da ciência dependem da assimilação da pesquisa e do seu impacto. Os pesquisadores concordam em ceder gratuitamente os seus artigos às revistas científicas em troca de tê-los revisado por pares e certificados em conformidade com os padrões de qualidade das revistas em que elas são publicadas.

Paul Ginsparg vai mais longe ainda dizendo:

Então o ponto essencial é auto-evidente: se nós os pesquisadores não escrevemos com a expectativa de obter lucros diretamente de nossos esforços, então não há razão terrena que justifique que alguém deva obter lucros neste processo (exceto por um justo retorno sobre algum serviço com valor agregado não trivial que ele possa fornecer; ou exceto se, como era antigamente, no caso, apenas, da era da revista impressa, onde os verdadeiros custos para torná-los publicamente disponíveis eram suficientemente altos, de forma a exigir que eles fossem vendidos por um preço.)

A partir desta percepção surgiu o movimento Open Access cuja primeira declaração foi elaborada e lançada como resultado de uma reunião realizada nos dias 1 e 2 de dezembros de 2001, organizada pela Open Society Institute (OSI), o Budapest Open Access Iniciative (BOAI). Conforme descreve o seu sítio (http://www.soros.org/openaccess), esta declaração surge de uma pequena reunião, porém animada e que reuniu participantes de diversas disciplinas acadêmicas e de diversos países, cujo objetivo principal era acelerar o progresso no esforço internacional de tornar os artigos de pesquisa de toda as áreas acadêmicas disponíveis gratuitamente na Internet. Os participantes representavam muitos pontos de vistas e experiências de diversas iniciativas em curso que visavam o Acesso Livre. Foram exploradas como as iniciativas separadas atuando juntas poderiam alcançar o sucesso mais amplo, mais profundo e mais rápido. Eles exploraram as estratégias mais eficazes e acessíveis para servir aos interesses da pesquisa científica, dos pesquisadores e às instituições e sociedades que apoiam a pesquisa científica. Finalmente, eles exploraram como OSI e outras fundações poderiam usar seus recursos de maneira mais produtiva para ajudar a transição para a abertura do acesso à produção científica global, tornando as publicações periódicas científicas livremente acessível e economicamente autosustentável. O resultado é a Budapest Open Access Initiative, que é ao mesmo tempo uma declaração de princípios, uma declaração de estratégias e uma declaração de compromissos.
A declaração Budapest Open Access Initiative recomenda duas estratégias complementares:

i. Auto-arquivamento; e
ii. Revistas Científicas de Acesso Livre.

A primeira estratégia considera que os pesquisadores/acadêmicos precisam de ferramentas e assistência para depositar os seus artigos publicados em revistas arbitradas por revisão de pares (peer-review) em arquivos eletrônicos abertos, prática também chamada de auto arquivamento. Considerando que esses arquivos estejam em conformidade com as normas criadas pelo Open Archives Initiative (OAI), em seguida, os motores de busca e outras ferramentas podem tratá-los separadamente como sendo um só. Desta forma, os usuários, não precisarão saber quais arquivos existem ou onde eles se localizam, a fim de encontrar e fazer uso de seu conteúdo.

A segunda estratégia, Revistas Científicas de Acesso Livre, sugere que os pesquisadores/acadêmicos necessitam de meios para o lançamento de uma nova geração de revistas científicas comprometidas com o Acesso Livre, e ajudar as revistas existentes que se interessem em tornar-se de o Acesso Livre. Considerando que os artigos publicados nessas revistas devem ser disseminados o mais amplamente possível, estas novas revistas não demorarão a invocar os direitos autorais para restringir o seu acesso e uso. Ao invés disto, essas revistas usarão os direitos de autor e outros mecanismos para garantir o o seu permanente Acesso Livre. Considerando que o preço é uma barreira ao acesso, essas novas revistas não aumentarão os preços de assinatura ou taxas de acesso, e buscarão outros métodos para cobrir as suas despesas. Existem diversas alternativas de fontes de financiamento para tender a esses propósitos, incluindo as fundações e agências de fomento à pesquisa, as universidades e laboratórios que empregam pesquisadores, doações de instalação feitas por disciplinas ou instituições, amigos da causa do Acesso Livre, lucros da venda de complementos aos textos básicos, fundos liberados pelo desaparecimento ou cancelamento das tradicionais assinaturas de revistas ou taxas de acesso, ou mesmo contribuições dos próprios pesquisadores. Não há necessidade de favorecer uma solução em detrimento de outras para todas as disciplinas ou nações, e não há necessidade de parar de usar outras soluções criativas alternativas.

Esta declaração define os princípios e estratégias que têm sido seguidas e preconizadas por diversos líderes e especialistas. Paul Ginspag deu tom moral/ético, o fato de os pesquisadores não publicarem com interesses comerciais/lucrativos não dá direito a que outrem utilizar as suas descobertas para fazer lucro ou comércio. Conforme a declaração de Budapeste (BOAI) existem diversas fontes de recursos que poderão apoiar o lançamento/manutenção de uma Revista Científica de Acesso Livre. O uso consciente, moral e ético desses recursos depende dos editores das revistas. Trata-se de um procedimento como qualquer procedimento dentro da administração.  Um procedimento incorreto ou fora da normalidade administrativa não pode ser imputado ao movimento do Acesso Livre.

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fevereiro 27, 2012 - Posted by | artigo | , , , , , , , ,

7 Comentários »

  1. […] declaração BOAI e  que foi objeto de um post publicado esta semana, trata-se do post intitulado Acesso Livre: como tudo começou, publicado em 27 de Fevereiro de […]

    Pingback por Acesso Livre = Open Access= Aceso Abierto: relembrando os seus fundamentos « Blog do Kuramoto | março 1, 2012 | Responder

  2. […] iniciou-se na última década do século XIX (anos 90), época em que a crise dos periódicos científicos se evidenciou pela alta excessiva dos preços das assinaturas e […]

    Século XIX ou XX ???

    Comentário por Rosane | julho 29, 2012 | Responder

    • Olá Rosane,

      Obrigado pela sua ajuda, realmente, cometi um erro primário. Os anos 90 fazem parte do século XX.

      Um abraço.
      Helio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | julho 29, 2012 | Responder

  3. Olá Kuramoto,

    Estou reunindo documentos que estão diretamente ou indiretamente relacionados as discussões e reuniões que culminaram com o surgimento do chamado “movimento para acesso livre a informação”, um dos documentos que coletei mas não consegui ainda encontrar relação com o BOAI foi a “WORLD CONFERENCE ON SCIENCE: SCIENCE FOR THE TWENTY-FIRST CENTURY: A New Commitment”, você saberia esclarecer este ponto? Ou é mera coincidência esta Conferência ter acontecido também em Budapeste? Penso que o tema tratado nesta World Conference promovida pela Unesco está diretamente relacionada a reunião organizada pela OSI em Budapeste que resultou na primeira declaração de Budapeste, ou estou enganada?

    Comentário por Susana | janeiro 6, 2013 | Responder

    • Boa noite Suzana,

      Cheguei, agora à noite de viagem e, creio que não terei condições de te dar uma resposta. Porém, amanhã à tarde te enviarei uma resposta mais segura sobre a questão que vc colocou. Tenho também algumas dúvidas e preciso fazer uma breve pesquisa para te dar uma resposta definitiva. Desculpe-me.

      Feliz 2013.

      Um abraço.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | janeiro 6, 2013 | Responder

    • Olá Susana,

      Bom dia!! Ontem ao responder a sua mensagem, eu me confundi e me enderecei à Suzana com ‘z’e só hoje, revendo as mensagens é que me dei conta do meu equívoco. Desculpe-me. Verifiquei o evento e o documento a que vc se referiu, cujo endereço onde o documento pode ser encontrado é: http://unesdoc.unesco.org/images/0012/001207/120706e.pdf. O dito evento foi realizado em junho de 1999 e o evento que deu origem ao BOAI e consequentemente às estratégias que deram suporte às principais inicitivas que promoveram o OA, foi realizado um pouco mais de um ano depois deste evento e que foi realizado na mesma cidade, Budapeste, cujas informações vc pode encontrar no sítio: http://www.opensocietyfoundations.org/openaccess.
      Portanto, apenas a cidade é a mesma, mas, trata-se de dois eventos distintos.

      Um abraço.
      kura

      Comentário por Helio Kuramoto | janeiro 7, 2013 | Responder

      • Olá Kuramoto,
        Muito obrigada pela presteza na resposta, não se preocupe quanto ao “z” ou “s” já estou tão acostumada que não me incomoda mais, quanto a relação entre os eventos realmente são distintos, mas percebi em algumas falas a preocupação com a questão do acesso aos resultados das pesquisas científicas, talvez denotando que o tema já estava tomando vários desdobramentos na época.

        Um abraço,

        Susana

        Comentário por Susana | janeiro 7, 2013


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