Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Acesso Livre (OA): pode uma revista mantida com recursos publicos adotar o modelo de negócio “autor-paga”?

Helio Kuramoto

Há alguns posts atrás fiz um elogio a duas revistas brasileiras que adotaram o modelo de negócio “autor-paga” e me parece que tal elogio tem sido utilizado para justificar o injustificável. É preciso esclarecer que o elogio foi apenas à decisão da revista em adotar o modelo de negócio “autor-paga”, a qual me levou ao entendimento de que se tratava de uma decisão em busca da auto-sustentabilidade. Este elogio foi um ato precipitado de minha parte, considerando que eu não tinha conhecimento que uma das revistas era mantida com recursos públicos e utilizava infraestrutura de instituição pública.

Assim, é preciso esclarecer melhor as coisas para evitar mal-entendidos e não prejudicar o entendimento sobre Acesso Livre (Open Access), e neste caso o meu elogio se deveu à coragem dos editores em adotar um modelo de negócio que vem sendo adotado por grandes editores comerciais. Consequentemente, entendi que o intuito das revistas era ter auto-sustentabilidade, obviamente isto significa total independência de recursos públicos.

Soube, por colegas, que os meus posts teriam sido utilizados para reafirmar o acerto da decisão por parte da (s) revista(s) junto à sua comunidade de autores. Longe de querer ser redundante, devo reiterar que o movimento Open Access, visando tornar livremente acessível o acervo de cerca de 1,5 milhões de artigos científicos que são publicados anualmente em aproximadamente 28 mil revistas centíficas, estabeleceu as seguintes estratégias: 1) que os pesquisadores publicassem preferencialmente em revistas científicas de acesso livre (Open Access) – via Dourada (Gold road); 2) que as universidades e demais instituições de pesquisa construam repositórios institucionais (RI), assim como as agências de fomento construam o seus repositórios centrais (RC) e que sejam estabelecidas políticas de acesso livre tornando obrigatório a todos os seus pesquisadores o depósito de sua produção científica publicada em revistas científicas – via Verde (Green Road);

Após 11 anos da adoção dessas estratégias verificou-se que a estratégia via Verde é a que oferece melhor relação benefício/custo. E, que por outro lado, a estratégia via Dourada é ainda muito cara e lenta, além de ser totalmente dependente da tomada de decisão dos seus editores, usualmente, vinculados a empresas. Como toda empresa, estas têm como objetivo principal a obtenção de lucros. Alguns desses editores até já lançaram revistas de acesso livre utilizando o modelo “autor-paga”. No entanto, a taxa de publicação estabelecida por esses editores é ainda muito cara. Então, não vale à pena publicar nessas revistas. Assim, é preferível que os pesquisadores continuem publicando em revistas comerciais e ao mesmo tempo façam o auto-depósito dos artigos nos RI e RC. Essa é também a minha opinião.

No contexto mundial, observamos uma particularidade, a grande maioria dos editores tem como suporte empresas comerciais, com infraestrutura própria e não dependem diretamente de recursos públicos, ou seja não são financiadas com recursos públicos.

Agora vejamos o caso das revistas científicas brasileiras. A maioria delas são mantidas com recursos públicos provenientes de agências de fomento, de universidades públicas ou de instituições de pesquisa públicas. A maioria delas utilizam a infraestrutura de instituições públicas, assim como do quadro de pessoal dessas instituições que são também funcionários públicos. Portanto, essas revistas são totalmente dependentes de recursos públicos.

Sempre defendi que as revistas científicas brasileiras buscassem uma forma de se auto-sustentarem, tornando-se independentes de financiamentos de agências de fomento e consolidassem a indústrial editorial científica no País. Daí o meu elogio, pois, ingênuamente, pensei que as revistas elogiadas não dependessem de qualquer recurso público.

A questão é: seria ético ou moral e políticamente correto que essas revistas adotem o modelo de negócio “autor-paga”, sabendo previamente que estas são financiadas e mantidas com recursos públicos?

Evidentemente que, a adoção do referido modelo é livre e depende apenas do interesse dos editores. Mas, se a revista já era de livre acesso e continuará dependendo de recursos públicos, então não se justifica a adoção deste modelo. A simples adoção do referido modelo não é uma iniciativa aderente ao Acesso Livre, pois, acaba tornando-se uma restrição à disseminação da informação. É preciso conhecer o contexto sob o qual o referido modelo foi criado. Ele foi criado por editores comerciais. Portanto, a adoção do modelo “autor-paga” deve ser precedida de uma análise mais profunda sobre todo o contexto da revista, de sua vinculação institucional, e de seus interesses e propósitos. Alem disso, obviamente, a tomada de decisão deve ser em proveito da sua comunidade usuária e autoral.

Antes de concluir este post faço as seguintes considerações:

1. Até onde eu sei, as revistas científicas que adotaram o modelo “autor-paga” são revistas científicas comerciais, à exceção das revistas do PLoS (Public Library of Science”) que já adotam o referido modelo às suas revistas desde o seu nascedouro, e no que me consta, é uma organização independente criada por editores científicos e não dependem de recursos públicos;

2. O Acesso livre veio para facilitar o acesso às pesquisas e não para impedir o seu acesso ou a sua disseminação

3. O conhecimento gerado por pesquisas é um bem público e como tal deveria ser de livre acesso.

4. Assim, não posso entender como uma revista que já é mantida com recursos públicos e fornece Acesso Livre e, como tal, deveria servir aos interesses da comunidade científica possa adotar o modelo de negócio “autor-paga”, isto é como dar um tiro no próprio pé.

Deixo esta questão no ar para que os leitores deste blog possam emitir a sua opinião e debater por intermédio dos comentários via este blog.

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fevereiro 9, 2012 - Posted by | artigo | , , , ,

3 Comentários »

  1. Não acho ético uma revista financiada por recursos públicos cobrar qualquer tipo de taxa. Já pagamos tantos impostos nesse país e agora os pesquisadores e cientistas terão mais uma taxa que por sinal é muito alta para poder publicar resultados que muitas vezes interessa a comunidade cientifica e podem contribuir para o desenvolvimento de novos métodos de tratamentos.

    Comentário por Teresa | fevereiro 9, 2012 | Resposta

    • Prezada Tereza,

      concordo com o seu posicionamento. A captação de recursos em troca da publicação de artigos científicos aliada ao financiamento público e uso da infraestrutura pública, mais do que moralmente incorreto é uma forma de restrição à disseminação do conhecimento científico. Isto não faz parte das iniciativas do Acesso Livre.

      Cordiais saudações.
      Hélio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | fevereiro 9, 2012 | Resposta

  2. […] ou científica. Aliás, é bom que se diga, isto já aconteceu também aqui no Brasil, veja post  publicado, nete blog, no início de 2012 mas, aparentemente, dentro de um outro contexto. Outro […]

    Pingback por Publicação Predatória (ou Parasita?) « Blog do Kuramoto | fevereiro 18, 2013 | Resposta


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