Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Preservação do conteúdo das revistas científicas x Preservação do conteúdo em Acesso Livre

US OSTP RFI

Vejam que interessante a questão formulada pelo OSTP .  A questão colocada é um tanto quanto confusa e dá a entender que o objetivo das agências de fomento ao estabelecerem as suas políticas de Acesso Livre querem manter em seus domínios a guarda de toda a produção científica. Stevan Harnad responde de forma bem clara e objetiva.

Por quais razões uma agência de fomento à pesquisa científica deve manter a guarda de todo o conteúdo publicado, e, considerando que esse conteúdo é distribuído por várias fontes, de que forma o governo pode garantir a filosofia de Acesso Livre por um longo período de tempo?

Resposta de Stevan Harnad:

É imperativo distinguir (i) o problema do acesso aos artigos científicos /impacto do (ii)  problema de armazenamento digital e preservação. São problemas distintos  e misturando-os torna-se mais difícil de entender e resolvê-los.

Há de fato um problema de armazenamento digital e sua preservação, e muitas medidas estão em curso para atendê-los, mas não tem nada a ver com o problema do acesso à pesquisa ou com o Acesso Livre. Conteúdo digital precisa ser preservado, independentemente de o mesmo ser livremente acessível ou ser acessível por intermédio de aquisição da assinatura da revista que o publicou. Preservá-lo não o torna acessível livremente.

A obrigatoriedade do autoarquivamento dos artigos científicos, provenientes de todas as  pesquisas financiadas com recursos públicos, preconizada pela estratégia da via Verde do Acesso Livre,  resolve o problema do acesso/impacto dessas pesquisas.

Não existe ainda essa “guarda”. Assim que uma política de Acesso Livre é estabelecida, os artigos científicos dos pesquisadores beneficiados com o financiamento público de sua pesquisa, estarão, em linha,  acessíveis livrementes a todos os usuários, a nível global, tendo estes acesso ou não  por meio do pagamento de assinaturas às revistas que o publicaram.  Esses artigos depositados nos Repositórios Institucionais mediante o estabelecimento de políticas de Acesso Livre (estratégia da via Verde) são coletados por vários serviços de coleta/repositórios centrais  e é do interesse de todos mantê-los livremente acessíveis, indefinidamente, migrando e replicando-os com atualizações e desenvolvimentos tecnológicos.

Mas esses registros, provenientes das iniciativas preconizadas pela via Verde não são as versões-de-registro do editor.

A preservação da versão digital da versão-de-registro do editor é um assunto para o arquivo  das bibliotecas nacionais, espelhamento, LOCKSS, etc. Isto é, porém, independente do problema do Acesso Livre  – nem mesmo os  documentos digitais estão em causa !

As versões dos artigos científicos, objeto da estratégia da via Verde do Acesso Livre, necessitam ser preservados também, e os repositórios institucionais, assim como os repositórios centrais que coletam esses artigos podem e vão garantir o livre acesso ao seu conteúdo.  Mas isso não é o problema da preservação da versão digital da(s) revistas científicas.

Surge nessa resposta uma questão interessante e pouco debatida aqui no Brasil, a quem compete preservar o conteúdo digital das revistas científicas? À CAPES? À Biblioteca Nacional?

Trata-se de um conteúdo cuja propriedade é das revistas científicas e, portanto, pouco acessíveis, visto que, é necessário ser detentor de assinaturas para que o seu conteúdo seja acessível aos seus assinantes.

Quando essas revistas eram impressas, cabia às bibliotecas a sua guarda e conservação, tendo em vista, que faziam parte do patrimônio das bibliotecas. Mas, com a mudança das tecnologias de transporte e acesso a esse conteúdo, salvo melhor juízo, as bibliotecas deixam de ter o controle a esses conteúdos para preservá-los, uma vez que quem os mantém e controlam são as editoras dessas revistas.

Por outro lado, todo o conteúdo digital dos repositórios institucionais devem ser mantidos e preservados pelas suas respectivas instituições, em conformidade com a resposta do Stevan Harnad.

Abro um parêntese para colocar uma outra questão. Enquanto as revistas eram impressas, conforme foi dito anteriormente, a responsabilidade pela sua manutenção e preservação cabia às bibliotecas. Entretanto, depois do advento do Portal de Periódicos da Capes, a maioria das bibliotecas universitárias brasileiras deixaram de assinar os periódicos de suas coleções de revistas científicas. Em contrapartida, a CAPES passou a manter a assinatura da maioria dessas revistas. A pergunta que intriga muito de nossos profissionais de informação é: os contratos que a CAPES mantém com esses editores permitem aos usuários brasileiros o acesso a um número retrospectivo de uma dessas revistas eletrônicas que deixaram de ser acessível em meio impresso, portanto, inexistente nas bibliotecas universitárias brasileiras? Ou melhor ainda, se daqui alguns anos, o Brasil não tiver condições de manter o Portal de Periódicos da Capes, e o acesso for cortado, os nossos pesquisadores terão acesso a algum fascículo ou número retrospectivo de alguma dessas revistas assinadas ao longo desses dez anos?

São estas as grandes dúvidas que pairam nas cabeças de nossos profissionais de informação. Não conheço os referidos contratos e sei que essas questões não foram respondidas. Considerando a possibilidade de que não haja um plano ou procedimento de preservação definido ou ativo, qual seria a solução? A única solução são os Repositórios Institucionais, preconizados pela estratégia da via Verde do Acesso Livre.

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janeiro 30, 2012 - Posted by | artigo | , , , , , ,

2 Comentários »

  1. Prezado Helio:
    vc traduziu bem a preocupação dos profissionais da informação. E SE a Capes por algum motivo ,que não vem ao caso discutir agora, cessar as assinaturas dos periódicos, como ficaria o acesso à coleção retrospectiva? .
    Naõ sei se vc acompanhou a criação do PROBE aqui em São Paulo , mas a proposta inicial considerava esta possibilidade e foi assegurado que todas as coleções retrospectivas e pagas fossem depositadas para livre consulta em um servidor disponibilizado pela Fapesp, depois que a CAPES “encampou” o acesso aos periodicos ai não acompanhei mais.
    Mas dia , menos dia teremos que decidir o que fazer. Para as editoras não é problema com o desevolvimento da TI e as facilidades para mega armazenamento nos servidores, pagando esta tudo tranquilo para eles, porém e SE nós ,comunidade usuaria não tivermos recursos suficientes?
    Talvez uma idéia ( ainda embrionária) seria e se as bibliotecas ( a exemplo de quando eram impressos) recebessem e armazenassem as coleções retrospectivas que são de interesse especifico para a sua comunidade, digo os arquivos eletronicos, e utilizassem o Comut para fornecimento de serviços ,desta vez tudo via eletronica , claro! Fariamos um armazenamento compartilhado
    Não esta tudo pago pela Capes?? é nosso…
    Grande abç
    Mery

    Comentário por mery | janeiro 30, 2012 | Responder

    • Prezada Mery,

      obrigado pelo seu esclarecedor e ao mesmo tempo interrogativo comentário. Exatamente, é essa a minha preocupação, caso o Portal de Periódicos da Capes deixe de existir de forma abrupta. Já cheguei a discutir este assunto no IBICT e externei uma sugestão que poderia suprir os nossos usuários: por que o COMUT como programa de fornecimento de artigos científicos não faz, agora, uma espécie de backup de todos os artigos fornecidos,tanto aqueles via revista impressa quanto aqueles fornecidos eletronicamente? Além disso, o programa COMUT poderia utilizar o CCN e identificar todas as revistas utilizadas por nossas bibliotecas e fazer o download de todos os artigos constantes dessas revistas a partir do Portal de Periódicos da Capes. Com isto, creio que teríamos todas as revistas, impressas e eletrônicas, disponíveis para o fornecimento de cópias dos mesmos, no IBICT. Aliás, acredito que se o IBICT tivesse essa iniciativa e articulasse com a Capes, ele estaria reforçando o seu papel de acordo com o significado de seu nome e se consolidaria como instituição de governo dedicada à informação científica.

      E aí, uma forma de fazer esses downloads é utilizar as bibliotecas universitárias, conforme a sua sugestão. O IBICT ficaria na retaguarda, fornecendo a infraestrutura necessária para armazenar os artigos e as biblioecas membros do CCN teria o papel e a incumbência de fazer os downloads. Evidentemente, que tudo poderia ser feito de forma automática, basta elaborar um programa para varrer o CCN e ir até o Portal fazer os devidos downloads, de acordo com a lista de periódicos científicos existentes na várias coleções mantidas por essas bibliotecas.

      Independente, desta iniciativa, eu ainda acredito que os repositórios institucionais de todo o globo terrestre possa salvar esse conteúdo digital. Acho isso mais plausível do que a tal negociação/articulação IBICT/CAPES. Pelo menos, os usuários ficariam livres do fogo das vaidades.

      Um abraço.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | janeiro 30, 2012 | Responder


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