Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

OA: Respostas de Stevan Harnad à solicitação de informações do US OSTP (Parte 3)

Algumas das respostas de Stevan Harnad já foram amplamente divulgadas neste blog e, certamente, elas continuarão fazendo parte das suas respostas ao RFI do OSTP do governo americano. Portanto, peço aos leitores deste blog desculpas por essa duplicidade de informação. No entanto, acho interessante continuar publicando as respostas para reiterar e levar ao conhecimento dos leitores que visitam este blog pela primeira vez e não tem conhecimento do estágio do OA. Isto reforçará os conhecimentos daqueles que já possuem algum contato com o OA, assim como nivelará o conhecimento daqueles que nada sabem a respeito do OA.

Segundo Harnad, a adoção e estabelecimento de mandatos/políticas de acesso livre é, portanto, ótima também para os EUA.

A principal barreira que limita o acesso aos resultados das pesquisas  na era da Internet é o fato de que, embora a pesquisa seja financiada com recursos públicos, os resultados delas só são acessíveis aos pesquisadores cujas instituições podem pagar pelas assinaturas de acesso às revistas na quais foram publicadas. Existem mais de 25.000 revistas arbitradas por meio de revisão por pares em todos os domínios científicos e acadêmicos em todo o mundo. Nenhuma universidade ou instituição de pesquisa conseguem assinar todas ou a maioria dessas revistas. A maioria das universidades só conseguem assinar uma pequena e diminuta fração delas:

Indicadores estatísticos, produzidos pela ARL, sobre coleções de revistas científicas nas universidades 

ARL – Association of Reseach Libraries

Na era de Gutenberg – impressão em papel – antes da era da Internet, não havia remédio para isso, porque os verdadeiros custos de fornecimento de acesso, via impressão em papel, eram tão altos que, a fim de cobrir os custos essenciais, os custos não elimináveis, as instituições tiveram que pagar pela assinatura dessas revistas.

Os custos de fornecimento de acesso à revista impressa, hoje, são ainda altos. Mas, o custo de fornecimento de acesso, por sí só, em linha não é – na realidade são próximos de zero: uma vez que os artigos após serem revisados por pares e aceitos para publicação, poderiam ser depositados por seus autores/pesquisadores em repositórios institucionais ou centrais para torná-los disponíveis via o acesso em linha, livre para todos, independentemente de a sua instituição (ou, no caso do Brasil, os governos Federal e Estadual) ter condições ou não de assinar a versão impressa da revista ou da sua versão em linha :

Registry of Open Access Repositories (ROAR)

O custos de fornecer a revisão por pares não é zero. A revisão por pares pode ser gratuíta, mas o editor da revista deve escolher os revisores e aprovar as revisões. Porém, o custo da revista (revisão por pares  +  impressão e distribuição + preparação para a versão em linha e distribuição de acesso) são totalmente cobertos hoje pelas assinaturas/licenças pagas pelas instituições (no caso do Brasil, os governo Federal e Estadual)  que podem pagar para assinar cada revista.

A internet agora torna possível  complementar a assinatura do acesso à versão em linha da revista com o acesso gratuito à versão final do artigo revisado por pares para todos os potenciais usuários cujas instituições não podem pagar pela assinatura da versão em linha da revista.

Daí um, simples, passo sem custos que as agências de fomento podem e devem tomar para maximizar a captação, uso e impacto das aplicações provenientes de artigos revisado por pares é tornar obrigatório (ou seja, exigir) que a versão final do artigo revisado por pares provenientes das  pesquisas financiadas  com recursos públicos  devem ser depositados (“self-archived”), em repositório institucional ou Central de acesso livre, imediatamente após a sua aceitação para publicação.

Mais de 50 agências de fomento (incluindo o NIH) e cerca de 200 universidades e instituições de pesquisa em todo o mundo (incluindo Harvard e MIT) já adotaram mandatos/políticas de acesso livre (Green OA). (Veja a curva de crescimento de mandatos no ROARMAP (Registry of Open Mandatory Access políticas de arquivamento, Figura 2, abaixo). Isto é o que veio a ser chamado de “Acesso Livre pela via Verde” (Green OA) auto-arquivamento:

Figura 2. Gráfico mostrando o crescimento do registro de mandatos/políticas de acesso livre (Green OA) em instituições e agências de fomento

Figura 2. Gráfico mostrando o crescimento do registro de mandatos/políticas de acesso livre (Green OA) em instituições e agências de fomento

Harnad, S., Brody, T., Vallieres, F., Carr, L., Hitchcock, S., Gingras, Y, Oppenheim, C., Stamerjohanns, H., & Hilf, E. (2004) The green and the gold roads to Open Access. Nature Web Focus.

A obrigatoriedade preconizada pela estratégia da via Verde é a mais simples, medida praticamente livre de custos que vai promover o crescimento de mercados novos e existentes para os frutos das pesquisas financiadas com recursos públicos.

Para ver o poder da estratégia da via Verde para acelerar o crescimento do Acesso Livre, compare a taxa de crescimento das revistas de Acesso Livre [(Gold OA), que não está nas mãos da comunidade científica, nem nas mãos das agências de fomento e, portanto, seu crescimento não pode ser acelerado por mandatos/políticas] com a taxa de crescimento da estraégia da via Verde do Acesso Livre (Green OA) quando é obrigatória. (Veja a Figura 3 e Figura 4 abaixo. Veja também Figura 4a).

Figura 3. Gráfico Estimativa de crescimento para as pulicações de acesso livre (Gold OA)

De acordo com as estimativas da maior editora comercial de revistas de acesso livre (OA) hoje (Springer, editora das revistas BioMed Central e Open Choice), o número de revistas de acesso livre não vai chegar a 70% das principais revistas (aqueles indexados por Thompson-Reuters Web of Science) até 2026; mesmo as estimativas mais otimistas de Laakso et al (com base em todas as revistas) não atingirão 70% até 2020.

Em contrapartida, a estratégida da via Verde (Green OA), que promove o auto-arquivamento, promoverá o acesso livre a cerca de 20% da literatura científica se o auto-arquivamento não for obrigatório.  Entretanto, se a houver a adoção de políticas/mandatos tornando obrigatório o auto-arquivamento, cerca de 70% da literatura científica   serão livremente acessíveis, em um prazo de  1-2 anos (e continuará a crescer até 100%).

Figura 4. Comparação percentual entre o crescimento da LC, pela via Verde, sem adoção de mandatos OA (livre escolha) e com adoção de mandatos OA (Obrigatoriedade) e

O gráfico da figura 4 mostra que nas instituições que adotaram a estratégia da via Verde e não estbeleceram mandatos/políticas OA, ou seja, não tornarm o auto-arquivamento obrigatório, houve o depósito de apenas cerca de 20% da produção científica nessas instituiçÕes. Enquanto que nas instituições que aderiram à estratégia da via Verde e que adotaram mandatos/políticas OA ou seja que tornaram obrigatório, aos seus pesquisadores, o auto-arquivamento, cerca de 70% da produção científica dessas instituições foram depositadas nos seus repositórios institucionais.

Poynder, Richard (2011) Open Access by NumbersOpen and Shut, 19 June 2011

Laakso M, Welling P, Bukvova H, Nyman L, Björk B-C, et al. (2011) The Development of Open Access Journal Publishing from 1993 to 2009. PLoS ONE 6(6): e20961. doi:10.1371/journal.pone.0020961

Figura 4a. Porcentagens para as principais revistas considerando as estratégias Verde e Dourada

Figura 4a. Porcentagens para as principais revistas indexadas pelo ISI, não indexadas e seu total, considerando as estratégias Verde e Dourada

As razões para as diferenças de percentuais das estratégias das via Verde / Dourada são que (1) cerca de 10% de todos as revistas são de Acesso Livre (Gold OA), (2) uma percentagem muito menor das principais revistas são revistas de Acesso Livre (Gold OA), (3) todos os artigos de revistas podem ser auto-arquivadas, e (4) mais de 60% das  revistas de acesso restrito (Não-OA, ou seja comerciais) já aprovaram o auto-arquivamento preconizado pela via Verde (Green OA). Cf. Figura 3 e Figura 4.

Neste ponto faço uma pausa para amanhã publicar mais uma parte das respostas. O inteiro teor dessas respostas pode ser encontrado no Blog Open Access Archivangelism.

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janeiro 11, 2012 - Posted by | artigo | , , ,

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