Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

A importância do Open Access para o Brasil

O problema

A informação científica é o insumo básico e crucial para o desenvolvimento das pesquisas científicas. A informação científica é o resultado dessas pesquisas e é publicada em revistas com revisão por pares, também denominadas revistas científicas. O tradicional sistema da comunicação científica, do qual emerge a informação cientifica, beneficia preferencialmente as revistas científicas publicadas em língua inglesa e, principalmente, aquelas publicadas em países desenvolvidos. Como resultado, países como o Brasil e outros em desenvolvimento, têm sido prejudicados por esse sistema. A título ilustrativo, em 2007, serviços de indexação como o ISI, indexavam 63 revistas publicadas no Brasil. Em 2008, este número saltou para 102 revistas. Existem hoje, no mundo, cerca de 30 mil títulos de revistas científicas. Deste total, o ISI indexa cerca de 10 mil títulos. Isto mostra a visibilidade das pesquisas brasileiras junto a comunidade científica internacional. Ou seja, a visibilidade da pesquisa brasileira se resume àquilo que é publicado nas revistas científicas comerciais, que são as que oferecem maior fator de impacto.

Esta pouca visibilidade da ciência brasileira conseqüentemente limita as possibilidades de promoção da inovação e do intercâmbio científico e tecnológico.

Além disso, não custa relembrar que a comunidade científica vive sob o impacto da crise dos periódicos científicos, fruto dos crescentes aumentos nos custos das assinaturas das revistas científicas. Segundo a ARL – Association of Research Library, a associação das bibliotecas universitárias americanas, no período de 1986 a 2006, as suas bibliotecas tiveram um incremento nos custos de manutenção de periódicos de 381%. Nesse mesmo período o incremento no índice de preços ao consumidor foi de 78%. A Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES gastou no ano de 2010, para manter as assinaturas das revistas do seu Portal de Periódicos, o montante de US$ 61 milhões de dólares.

Potencial alternativa de solução

Em conseqüência da crise dos periódicos científicos, a comunidade científica international lançou um movimento denominado Open Access (OA). Open Access significa: 1) acesso em linha (online) à produção científica; 2) acesso livre de custos à produção científica; 3) acesso imediato à produção científica; 4) acesso permanente à produção científica.

Acesso livre (OA) a quê? Acesso livre aos cerca de 2,5 milhões de artigos que são publicados anualmente em 28 mil títulos de periódicos científicos. Não se incluem nesse acervo os livros, romances, obras de arte e outras obras, que normalmente são objetos de comercialização ou de interesse lucrativo por parte de seus autores.

As estratégias recomendadas pelo OA são: 1) promover o auto-arquivamento dos resultados das pesquisas científicas, publicados em revistas com revisão por pares, em repositórios de acesso livre, também denominada de via Verde; 2) promover a construção e conversão de revistas científicas comerciais em revistas de acesso livre, também denominada de via Dourada.

Das duas estratégias, aquela que oferece melhor relação custo/benefício é a estratégia da via Verde. A estratégia da via Dourada é muito cara e depende dos editores científicos. Portanto, a estratégia mais viável, uma vez que depende unicamente dos pesquisadores e de suas instituições, é a estratégia da via Verde. Acredita-se que, hoje, cerca de 30% da produção científica mundial esteja em acesso livre.

Benefícios

Após 11 anos do seu surgimento, a estratégia da via Verde vem mostrando, conforme estudos realizados por Stevan Harnad e seus colaboradores, que os resultados de pesquisa depositados em repositórios digitais de acesso livre obtêm maior visibilidade do que os resultados que não estão disponíveis para acesso livre.

A estratégia da via Verde se adotada por todas as instituições de ensino superior e de pesquisa promoveria, de forma sistemática, o registro da produção científica brasileira, uma vez que grande parte da pesquisa brasileira é financiada com recursos públicos e são desenvolvidas nas instituições de ensino superior e de pesquisa. Em consequência, mais do que maximizar a visibilidade das pesquisas, as seguintes possibilidades emergiriam:

1. Geração e fornecimento de serviços de informação com valor agregado;

a. Mineração de dados;
b. Serviços de alerta para a inovação;
c. Disseminação seletiva da informação;
d. Serviços de informação customizados para a necessidade do usuário;

2. Geração e fornecimento de indicadores estatísticos necessários ao planejamento da ciência e tecnologia;
3. Preservação da memória científica brasileira;
4. Certificação dos dados informados na plataforma Lattes;
5. Fornecimento de acesso à produção científica brasileira em acesso livre;
6. Subsídios para a avaliação de desempenho dos pesquisadores e das instituições de ensino e pesquisa brasileiras;
7. Identificação de grupos e redes de pesquisadores;

Enfim, a via Verde se amparada por diretrizes de governo, transformando-a em política pública, seria capaz de gerar e fornecer uma diversidade de indicadores estatísticos e serviços de informação capazes de suprir à “notável fragilidade em transferir conhecimento ao setor produtivo”, conforme identificou o Prof. Ronaldo Mota, secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação em artigo publicado no Jornal da Ciência, do dia 08 de Novembro de 2011, sob o título: “Inovação e a cobra que mordeu o rabo”.

Anúncios

novembro 23, 2011 - Posted by | artigo | , , , , ,

3 Comentários »

  1. Acho que o sr. salvou a minha vida!!!! Precisava de uma inf. assim para um trabalho da faculdade!! Estudo na UFRGS! Obrigada… Bom resto de dia!! Nice.

    Comentário por Nice Della Pasqua | novembro 23, 2011 | Responder

    • Prezada Nice,

      obrigado pelo seu comentário.

      Uma boa noite.

      Abraços
      Helio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | novembro 23, 2011 | Responder

  2. […] dia 23 de Novembro de 2011, reiterei a importância do Acesso Livre para o Brasil por meio do post A importância do Open Access para o Brasil. É gratificante verificar que não se trata de  um posicionamento isolado, Tylor Neylon, […]

    Pingback por O Acesso Livre e a Inovação Tecnológica « Blog do Kuramoto | fevereiro 20, 2012 | Responder


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: