Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

OA: tentando esclarecer conceitos I

A definição ou estabelecimento de conceitos é, usualmente, algo muito difícil para áreas já consolidadas. Imaginem para uma área que se encontra em formação. O Open Access completou no ano passado 10 anos de existência e, certamente, muitos de seus fundamentos ainda estão por consolidar.

Tenho participado de bancas de teses e dissertações, assim como, tenho recebido emails e percebo em ambos contextos a existência de entendimentos sobre alguns fundamentos do OA, na minha modesta opinião, equivocados.

Não se trata de fazer qualquer crítica aos autores, ou de apontar erros, mas de provocar uma ampla discussão na tentativa de consolidar esses conhecimentos.

Um desses entendimentos diz respeito ao Open Archives que, uma grande parte da comunidade de ciência da informação tende a achar que o seja um movimento análogo ao Open Access. Discordo, sempre costumo dizer que o OAI é um conjunto de padrões para permitir a interoperabilidade entre sistemas de informação. Isto, na minha cabeça é muito claro. Mas, resolvi visitar o sítio do Open Archives Initiative, o qual mostra uma outra realidade. Trata-se na verdade de uma organização, grupo ou equipe que tem como missão promover e desenvolver padrões de interoperabilidade. Esta definição está colocada de forma clara e incontestável naquele sítio.

Um outro mal entendido que venho percebendo é quanto à classificação dos repositórios. Há alguns autores que classificaram os repositórios digitais em três classes: 1) repositórios institucionais; 2) repositórios temáticos ou disciplinares; 3) repositórios de teses e dissertações. Com todo o meu respeito aos autores que fizeram tal classificação, tomo a liberdade de discordar deles. A minha discordância se justifica na medida em que tal classificação é desprovida de qualquer critério.

Em meu entendimento, os repositórios podem ser classificados em três tipos. Isto considerando a abrangência do material armazenado nos repositórios:

1) repositório institucional – armazena a produção científica de uma instituição; Ex.:RIUnB
2) repositório temático ou disciplinar – armazena a produção científica de uma área do conhecimento ou disciplina. Ex.:E-LIS
3) repositório central – armazena a produção científica de uma ou mais agência de fomento. Ex.:

Existe na web um documento intitulado “Digital Repositories Review” que traz a seguinte classificação:

Por tipo de conteúdos:

• Dados brutos de pesquisa;
• Dados derivados de pesquisa;
• Artigos acadêmicos pre-print em texto integral
• Artigos de conferência ou revistas em texto integral revisado por pares;
• e-teses
• Publicações originais em texto integral (relatórios técnicos institucional ou departamental)
• Objetos de aprendizagem;
• Registros corporativos (registros de estudantes ou dos dirigentes, licenças etc).

Por Cobertura:

• Pessoal (arquivo pessoal do autor)
• Revista (conteúdos de uma simples revista ou de um grupo de revistas)
• Departamental
• Institucional
• Inter-institucional (regional)
• Nacional
• Internacional

Por funcionalidade do repositório:

• Acesso melhorado a recursos (descoberta e localização do recurso)
• Acesso ao recurso por meio do assunto (descoberta e localização do recurso)
• Preservação de recursos digitais
• Novas formas de disseminação (novas formas de publicação)
• Gestão de ativos institucionais
• Compartilhamento e re-uso de recursos

Por grupo de usuários-alvo:

• Alunos
• Professores
• Pesquisadores

Apesar das diferentes conceituações e classificações cabe a nós pesquisadores ter o bom senso de utilizar aquelas que guardam uma coerência em termos de definição. No caso, eu continuo com a minha classificação utilizando o critério da abrangência, que poderia ser acrescida da classificação proposta pelo documento apresentado, considerando o critério da cobertura, assim os repositórios poderiam ser do tipo:

01) Repositório Institucional para caracterizar aqueles repositórios que armazenam a produção científica de uma dada instituição;
02) Repositório Temático ou Disciplinar para caracterizar aqueles repositórios que armazenam a produção científica de uma área do conhecimento;
03) Repositório Central para caracterizar aqueles repositórios que armazenam a produção científica referentes às pesquisas financiadas por um ou mais agências de formento;
04) Repositório Departamental para caracterizar os repositórios que armazenam a produção científica de um departamento de uma instituição, ou no caso francês, dado que lá a unidade da federação se chama departamento, a produção científica de um de seus estados;
05) Repositório Inter-Institucional para caracterizar os repositórios que armazenam a produção científica de duas ou mais instituições;
06) Repositório Nacional para caracterizar o repositório que armazena a produção científica de um País;
07) Repositório Internacional para caracterizar o repositório que armazena a produção científica de mais de um País;
08) Repositório Regional para caracterizar o repositório que armazena a produção científica de uma região. Por exemplo: América Latina; Comunidade Européia; ou Região Sul do Brasil.
09) Repositório Estadual para caracterizar os repositórios que armazenam a produção científica de um estado ou unidade da federação

Caso o caro leitor discorde ou tenha ficado com alguma dúvida, envie-me um comentário que terei prazer em responder e/ou discutir. Não deixe de comentar clicando aqui

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setembro 12, 2011 - Posted by | conceitos | , , ,

4 Comentários »

  1. Obrigada pela elucidação dos conceitos Sr. Kuramoto. Creio que não apenas a mim, mas esclareceu para muitos alguns termos da área, principalmente quanto aos repositórios digitais.
    Na minha opinião, acho que deveria haver mais explicações em torno disso, vejo que muitos autores utilizam conceitos e categorizações de outrem e outro também passa a utilizar, sem buscar a coerência para tal e a fonte disso.
    Quanto à tipologia dos repositórios, também acho que é mais que urgente que houvesse uma padronização destes, da tipologia dos mesmos, não rígida, mas coerente e que os diretórios de repositórios de acesso aberto deveriam se adequar às mesmas, pois o que se percebe é que não são padronizados, cada um traz sua categorização e, a instituição é obrigada a registrar seu repositório, muitas vezes em uma categoria que não se adequa muito bem à realidade.
    Obrigada por contribuir para o esclarecimento desses equívocos.
    Foi de grande ajuda!

    Abraços!!!

    Comentário por Carla Ferreira | setembro 12, 2011 | Resposta

    • Prezada Carla,

      obrigado pelo seu gentil comentário. Vc tem razão quanto aos diretórios de repositórios não utilizarem um padrão no preenchimento dos registros de repositórios. Mas, neste caso, não temos qualquer condição de intervir, são projetos internacionais e que se encontram fora do nosso alcance.

      Cordiais saudações.
      Helio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | setembro 14, 2011 | Resposta

  2. Colega Kuramoto,

    Cumprimento-o pelo esforço incansável de divulgar e esclarecer a comunidade sobre o OA.

    Estava aqui pensando que as classificações propostas não são excludentes e peço desculpas pela ousadia, mas penso que o mais importante é definir o objeto “repositório” para diferenciá-lo, por exemplo, de “biblioteca digital”. Esta questão parece não estar clara.
    Há bibliotecas digitais de teses e dissertações que são divulgadas como repositórios e há repositórios que contém teses e dissertações. A denominação, nestes casos, é essencial para caracterizar o objeto no campo científico.

    A qualificação ou caracterização do objeto no campo profissional parece-me que depende do interesse do proponente/gestor/executor em relação à cobertura (do conteúdo) pretendida e o que será disponibilizado aos potenciais usuários: do ponto de vista temático (especializado ou geral /disciplinar ou multidisciplinar), da propriedade (individual ou coletiva/ pessoal ou institucional e diferentes níveis da estrutura organizacional) ou da abrangência territorial (nacional, regional, internacional, etc.)

    No caso da aparente confusão entre o Open Access e o Open Archives, talvez tenha a ver com o uso das siglas OA e OAI. No primeiro caso, a letra A se refere a Access e no segundo caso a letra A se refere a Archives. Assim, é importante esclarecer quando se fala de Acesso e quando se fala de Arquivo. O OA , pelo que entendi, é mais um movimento (politico-acadêmico-filosófico ) baseado em fundamentos universais de acesso livre, enquanto o OAI, é uma iniciativa de grupos que buscam o desenvolvimento de padrões de interoperabilidade que garantam comunicação entre sistemas.

    Peço então, que esclareça se é possível dizer que, embora conceitualmente diferentes, ambos estão interligados, já que a adoção dos fundamentos do Open Access é necessária à implementação de Open Archives e a interoperabilidade (técnica, semântica, política) é condição necessária para a consolidação das estratégias propostas pelo movimento do Open Access.

    Por outro lado, a concepção de biblioteca digital não necessariamente embute os fundamentos do OA, pois muitas são baseadas em sistemas proprietários comerciais, certo? E no caso dos repositórios, como estão as implementações no Brasil? Vi em outra mensagem um comentário seu sobre a distribuição de kits pelo Ibict, mas não entendi se se trata apenas de limitação política ou também técnica por parte das instituições receptoras dos kits.

    Abraços,

    Comentário por Asa Fujino | setembro 14, 2011 | Resposta

    • Prezada Asa,

      muito obrigado pelos seus comentários. Publiquei um novo post referente à conceituação de bibliotecas digitais e repositórios digitais.
      Quanto ao OA, OA e OAI farei posteriormente um novo post. Quanto aos pacotes de software para construção e gestão de bibliitoecas digitais e repositórios digitais, existem, hoje, uma gama de pacotes de software especializados para essas aplicações. Existem alguns que são proprietários e outros que são software open source ou software livre. O IBICT já os tem divulgado, inclusive, por conta do projeto de repositórios digitais. Mas, certamente, poderei fazer futuramente um novo post para tratar apenas desta questão. Não tratei desse tema hoje para não misturar as estações. Fiz, alguns dias atrás um post em que revelava a minha indignação pelo não cumprimento da meta de construir os repositórios, dado que os kits foram distribuídos há mais de um ano e com os pacotes de software instalados. Portanto, o problema não era político, mas técnico. Bem, é o que eu penso, de repente pode até ter havido algum problema político.

      Um abraço.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | setembro 14, 2011 | Resposta


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