Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

O que é Open Access e como fornecê-lo?

Foi publicado um post no blog High Education Development Association em que Stevan Harnad dá a sua visão sobre o Open Access ou acesso livre. Stevan esclarece em 14 pontos o Open Access. A forma como ele apresenta a sua visão sobre OA é tão interessante que eu tomei a liberdade de traduzí-las e publicar neste post.

1) O OA não é sinônimo de publicação OA (via Dourada). OA significa acesso em linha livre de custos, e seu primeiro objetivo é tornar livremente acessível os cerca de 2,5 milhões de artigos que são publicados anualmente em aproximadamente 25 mil revistas com revisão por pares existente no planeta. Atualmente, esses artigos são acessíveis somente a usuários cujas instituições podem assiná-las. A pesquisa, assim, está perdendo um potencial uso e impacto.

No caso brasileiro, quem paga por essas assinaturas é o próprio governo, visto que, as universidades são, em grande maioria, públicas e quem fornece o acesso aos periódicos é a sua própria biblioteca ou o Portal de Periódicos da Capes. Engana-se quem pensa que o referido portal é de acesso livre, alguém paga pela manutenção deste portal.

2) Há duas estratégias para fornecer o acesso livre: 1) os autores dos cerca de 2,5 milhões de artigos fazem o auto-depósito de seus artigos, versão final, em linha, livre para todos, em repositórios institucionais de acesso livre, imediatamente após o aceite para publicação por parte das revistas (via Verde); ou 2) as 25 mil revistas científicas podem se converter em publicação de acesso livre (via Dourada), tornando todos os artigos de suas publicações livres para todos em linha, com o custo da publicação sendo pago por suas instituições ou agências de fomento.

3) A estratégia da via Verde encontra-se totalmente nas mãos da comunidade de pesquisa, os provedores de conteúdos ou autores/pesquisadores; a estratégia da via Dourada está nas mãos da indústria editorial, os provedores comerciais de conteúdos, também conhecido como a comunidade de editores científicos.

4) A transição para o OA universal, pela estratégia da via Verde, pode ser obtido por adoção de políticas de acesso livre por parte da comunidade de pesquisa (suas instituições de pesquisa e agências de fomento); a transição para as publicações de acesso livre, estratégia da via Dourada , não pode ser encomendada ou exigida pela comunidade de pesquisa: ela depende da indústrial editorial.

No caso brasileiro, venho alertando já faz algum tempo, depende de políticas públicas, que deveriam ser adotadas pelos reitores das universidades, por presidentes das agências de fomento, ou pelos ministros da educação e/ou da ciência, tecnologia e inovação, ou quem sabe por intermédio do PLS 387/2011.

5) Os custos de publicação, hoje, estão sendo pagos, na sua totalidade, pelas instituições de pesquisa, por intermédio das assinaturas das revistas científicas.

No caso brasileiro, esses custos são pagos pelo governo brasileiro com os impostos que a sociedade paga, visto que as bibliotecas fazem parte das universidades que são em sua grande maioria públicas e o Portal de Periódics da Capes é mantido pela Capes que é um órgão de governo.

6) Isto significa que os potenciais fundos para pagar pela via Dourada estão, hoje, bloqueados para a assinatura de revistas científicas pelas instituições de pesquisa.

7) É, portanto, um desperdício desnecessário de recursos de pesquisa, cada vez mais escassos, pagar preventivamente para publicar em revistas OA.

Em outras palavras, não vale à pena publicar em revistas de acesso livre nos dias atuais.

08) O que a comunidade de pesquisa – instituições de pesquisa e agências de fomento – portanto, precisam fazer é adotar políticas de acesso livre (ou mandatos), especialmente e tão somente, nos dias de hoje, a adoção da estratégia da via Verde: http://roarmap.eprints.org

O grifo é por conta do blogueiro, uma vez que, nos dias de hoje e, enquanto a estratégia da via Verde não se tornar universal, não vale à pena publicar em revistas de acesso livre, cujas taxas de publicação são exorbitantes.

Stevan bate na mesma tecla que venho teclando nos meus últmos posts, a necessidade de adoção de políticas visando a implatação da via Verde no Brasil, o PLS 387/2011 torna viável tal implantação. Mas, existem ações que o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação poderiam fazer antecipando a aprovação do referido PLS. Espero não passar mais 4 anos e depois ver este projeto de lei ser arquivado por mudança de legislatura. Por isto, a importância de os dois ministérios citados liderarem este processo e tomar as devidas providências: a pulicação de uma simples portaria seria suficiente.

9) À medida que a estratégia da via Verde tornar-se universal, ela fornecerá o acesso livre universal, resolvendo os problemas de acesso à pesquisa. Ela não resolverá o problema de acessibilidade às revistas científicas, mas torna-se muito, mas muito menos importante e urgente, desde que o acesso universal em linha está disponível para todos, tendo ou não a capacidade de assinar as revistas científicas.

10) Se e quando os usuários acharem que o OA universal, pela universalização da via Verde, for suficiente para suas necessidades de uso, as instituições poderão cancelar as assinaturas das revistas científicas ou de seus portais de periódicos, as quais permitiam o acesso aos conteúdos apenas aos seus assinantes.

11) Se considerarmos a universalização da estratégia da via Verde, ou seja, o OA universal se consolidará, este fato induzirá, às instituições de pequisa o cancelamento de assinaturas, o que tornará insustentável a recuperação dos custos essenciais da publicação. Os editores cortarão seus custos, reduzindo-se e convertendo-se ao modelo de recuperação de custos adotado pela estratégia da via Dourada. Neste caso, as instituições perceberão uma poupança inesperada provocada pelo cancelamento das assinaturas das revistas científicas e poderão, então, pagar pelo custo da publicação de artigos dos seus pesquisadores em revistas que adotaram o modelo, preconizado pela estratégia da via Dourada. Ou seja, as instituições pagarão apenas pelos custos de publicação de artigos de seus pesquisadores, ao invés de, no caso atual, pagarem pela publicação de outros autores nas revistas que recebem, na forma de assinatura de um pacote de revistas, como fazem hoje.

O fato contundente desta análise é que hoje ao assinarmos uma revista ou um pacote de revistas, pagamos não apenas pela publicação de artigos de nossos autores, mas também pela publicação de artigos de outros autores. Pressupõe-se que as revistas se tornarão revistas de acesso livre somente após a via Verde tornar-se universal. Neste caso, as revistas científicas que utilizam o modelo de assinaturas para recuperar os seus custos serão obrigadas a modificarem os seus modelos de recuperação de custos, uma vez que a sua receita tenderá a cair. Consequentemente, as revistas tenderão a tornarem-se de acesso livre adotando o modelo autor-paga par sobreviverem. Assim, ao invés de pagar pela assinatura anual das revistas, as instituições pagarão apenas para os artigos de seus autores serem publicados.

12) O custo de publicação por artigo, adotado pelas revistas que adotaram o modelo de recuperação de custos preconizado pela estratégia da via Dourada, no entanto, após a via Verde do OA tornar-se universal, será muito inferior ao preço pedido hoje, porque, a conversão de revistas que adotam o modelo de reucperação de custos por meio de assinaturas para o modelo preconizado pela via Dourada, sob a pressão do cancelamento de assinaturas promovida pela estratégia da via Verde, as editoras serão reduzidas substancialmente, eliminando gradualmente suas edições impressas (e seus custos) inteiramente e descarregando toda a oferta de acesso e arquivamento (e seus custos) para a rede distribuída de repositórios institucionais em todo o mundo, com a versão OA verde tornando-se agora a versão canônica do registro.

13) Portanto, após a estratégia preconizada pela via Verde do OA tornar-se universal, os custos de publicação em revisas OA serão reduzidos para apenas o custo, por artigo, da gestão do proesso de revisão por pares (já que a revisão por pares é de graça), o seu resultado certificado pelo título e pelo histórico de padrão de qualidade da revista que publica o artigo (exatamente como agora).

14) Mas, tudo isto depende das instituições de pesquisa e das agências de fomento adoratem políticas preconizadas pela via Verde primeiro, ao invés de pagar ainda mais pelos custos advindos da conversão das revistas em OA (via Dourada). O preço, hoje, cobrados pelos editores dessas revistas ainda é muito alto e continuará alto enquanto não for possível o cancelamento de assinaturas das revistas que são essenciais os seus usuários.

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setembro 8, 2011 - Posted by | artigo | , , , , ,

2 Comentários »

  1. Caro Colega,
    Acho que este tipo de abordagem peca por duas omissões fundamentais:
    1) o enquadramento socio-político da investigação científica;
    2) a obliteração de que a investigação se faz cada vez mais num clima de concurrência capitalista/individualista e a edição num contexto de concorrência e busca de lucro.

    Efetivamente partir do princípio que a comunidade científica em globo, deseja a OA é utópico – os investigadores/as são impulsionados a escrever e publicar para fazerem avançar suas carreiras pessoais, «contra» as dos seus pares; daí, inclusive, a distorção de que se fala que leva a publicar a todo o custo, «a metro», porque o que conta é publicar muito, não necessariamente investigar bem.

    Isto quanto ao tópico 2).
    E voltando ao tópico 1) é preciso ter sempre presente que tudo isto se está a passar em clima de privatização das universidades e centros de investigação em grande parte do mundo ocidental; se hoje em dia grandes editoriais praticam preços exorbitantes é porque foram concessionadas (outsoursing) a privados – as universidades perderam o controle dessas empresas.
    Daí que, quando se fala das decisões das universidades, é preciso lembrar o enquadramento das políticas educacionais e de investigação a que estáo constrangidas.

    Sou grande adepta – e praticante, enquanto membro da comunidade E-LIS – do OA. Mas sei que este é um movimento de resistência, que enfrenta e afronta grandes interesses económicos que é preciso não só não ignorar como ter sempre presentes na nossa consciência. Tão pouco se pode esperar por uma especie de bondade congénita de toda a comunidade investigadora que só anseia por disseminar seus conhecimentos. Sabemos todas e todas que não é assim e que há toda uma geo-política nessa difusão, toda uma teia de relações de poder pessoais, institucionais e nacionais.

    Por isso creio, sim, que as investigadoras e investigadores se devem empenhar coeltiva e pessoalmente na via verde, a mais sensata e a que não deixa para o autor/a o peso de pagar pela edição, mas smepre com este pano de fundo bem claro.

    Comentário por Paula Sequeiros | setembro 8, 2011 | Responder

    • Prezada Colega,

      respeito o seu posicionamento, tenho uma compreensão diferente dos fatos que motivam o Open Access. Pode até haver omissão do enquantramento sócio-político da pesquisa científica, mas não se trata de um movimento com motivações políticas. É preciso considerar os seguintes pontos:

      1) O custo de acesso à informação científica se eleva periodicamente em uma espiral sem fim, enquanto os recursos para manter as coleções de revistas científicas é limitado, tanto em nível institucional quanto governamental;
      2) Os investigadores ou pesquisadores necessitam dessa informação para realizar as suas pesquisas ou investigação científica;
      3) As iniciativas não são contra nenhum segmento da comunidade científica nacional ou internacional, mas sim uma busca por maior acesso, visibilidade, imacto e uso das pesquisas científicas;
      4) O OA não exige e nem questiona a necessidade de um pesquisador publicar mais ou menos. Isto é uma orientação dependente de cada instituiçao ou País;
      5) As iniciativas do OA independem do estatuto jurídico ou administrativo das universidades;
      6) As iniciativas do OA são iniciativas em benefício dos pesquisadores e da sociedade, em geral;

      Por outro lado, concordo que:

      1) Existem interesses pessoais e de poder por detrás de todo o processo de aquisição e comercialização do acesso à informação científica, os quais só prejudicam a comunidade de pesquisa;
      2) Graças a esses interesses, as iniciativas preconizadas pelo OA não decolam;
      3) Os pesquisadores e as suas institções devem se empenhar para alcançar o OA universal por meio da via Verde, a melhor relação custo/benefício;
      4) Apesar de ser um movimento apartidário e apolítico, no Brasil, o OA ainda não teve adesão governamental devido a interesses de poder e interesses políticos, se é que posso considerar o fato de um ministro ter medo de um presidente de uma instituição um fato político.

      Enfim, retroajo em minhas considerações para dizer que no caso brasileiro existe sim a omissão do enquandramento sóico-político em função do ponto 4 explicitado acima.

      Cordiais saudações
      Helio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | setembro 10, 2011 | Responder


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