Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

OA: Mitos e Verdades II

Continuando a série OA: Mitos e Verdades, e considerando a definição do objetivo do OA no post passado passo a discutir outro ponto polêmico.

Quando comecei a divulgar o OA no Brasil, houve quem entendesse que tínhamos o objetivo de acabar com o Portal de Periódicos da Capes (PPC). Isto jamais existiu. Sempre reafirmei a importância do PPC para a comunidade científica e para o desenvolvimento da ciência neste País. Aliás, à época defendi a idéia de que ambas as iniciativas eram complementares, o importante é fornecer acesso à informação científica, independente da forma.

Hoje, após dez anos do início das inicitivas OA, é possível vislumbrar um futuro diferente. À medida que essas iniciativas se tornem universais, todos os 2,5 milhões de artigos terão acesso livre. O OA é um movimento global e, assim, diversos países vêm implantando a estratégia preconizada pela via Verde. As suas universidades, institutos de pesquisa e agências de fomento vêm implantando políticas OA e repositórios digitais OA. Esses repositórios integram uma infraestrutura global de acesso livre à informação científica, a partir da qual todo o acervo alí existente é acessível via search engines como o Google, Google Scholar, Yahoo dentre outros, que se aperfeiçoaram para indexar os repositórios digitais e fornecerem acesso, livre de custos, aos acervos constantes desses repositórios. Se todos os países adotarem a via Verde essa infraestrutura global consolidar-se-á e o OA será universal.

O OA não foi lançado para acabar com o PPC, mas, para promover o acesso livre à informação científica aos pesquisadores de uma forma geral. Aliás, nada impede que o PPC continue existindo, esta é uma decisão que cabe a quem de direito. Independente de o Brasil adotar ou não o OA, o movimento do OA continuará a sua marcha em direção ao OA universal.

A propósito, façamos uma reflexão: digamos que o Brasil não adote o OA. Neste caso, o OA não conseguirá ser universal, dado que a produção científica brasileira não estaria disponível para acesso livre. Então, o PPC continuaria sendo necessário para as pesquisas brasileiras. Assim, todas as comunidades científicas teriam acesso livre à produção científica global, menos à brasileira. Desta forma, o governo brasileiro continuaria pagando para ter acesso à produção científica brasileira, dado que ela não estaria depositada em repositórios OA – consequência da premissa levantada no início deste parágrafo. Além do prejuízo de ter que pagar para ter acesso àquilo que o País produziu, as nossas pesquisas abdicariam do benefício de maximização da sua visbilidade, uso e impacto, proporcionados pela estratégia da via Verde.

Se, no entanto, o Brasil aderir às iniciativas do OA, adotando uma política OA e construir seus repositórios digitais para hospedar a sua produção científica e fornecer acesso livre, a nossa comunidade científica terá os mesmos benefícios de forma similar às estrangeiras, sem custos para os cofres públicos, além de ver maximizada a sua visibilidade, uso e impacto em âmbito global.

O que é mais importante para o Brasil, ter e manter o PPC ou fornecer acesso livre à produção científica global, inclusive à brasileira?

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agosto 12, 2011 - Posted by | artigo | , , , , ,

4 Comentários »

  1. Quando o movimento de Software Livre começou muitos preconizavam o fim do software pago. No entanto, software livre e pago continuam a existir. Além do mais, acredito que a adoção do software livre permitiu inclusive o aumento da base mercadológica para os software’s pagos uma vez que a disseminação do conhecimento necessário para o uso do computador foi ampliado com as iniciativas de software livre.

    Comentário por Marcos Teruo Ouchi | agosto 12, 2011 | Resposta

    • Olá Marcos,
      obrigado pelo seu comentário, concordo plenamente com as suas palavras. A única diferença é que com relação ao software livre não havia nenhum órgão adepto do software proprietário e que o defendesse. Mas, na essência o seu comentário é perfeito. Além disso, é preciso dizert o OA não teria obtido a adesão que vem obtendo se não fosse o software livre. Há uns 10 anos atrás era complicado desenvolver qual projeto de sistema de informação envolvendo bancos de dados, uma vez que os pacotes de software eram caríssimos. Hoje se consegue desenvolver e implantar repositórios digitais, bibliotecas digitais ou qualquer outro serviço de informação a baixo custo. Assim, da mesma forma que o software open source, ou software livre, o acesso livre à informação científica proporciona aos que tem menos maiores oportunidades de desenvolvimento e progresso.
      Abraços.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | agosto 12, 2011 | Resposta

  2. Olá Professor, realmente não havia explicitamente um órgão que defendesse o software proprietário porém haviam e ainda há diversas ações coordenadas entre empresas como a Microsoft no sentido de “mostrar” que o software livre possui um alto custo de implementação e manutenção para aqueles que não possuem domínio de tecnologias.

    Na atualidade, as novas formas de comercialização como SaaS/Cloud Computing (software como serviço) são maneiras de se continuar a obter altos lucros com o desenvolvimento de software, ou seja, o software é livre mas para usar uma implementação feita e sob a estrutura da empresa X ou Y deve-se pagar por isso.

    Penso ser menos pior esta “nova” forma uma vez que na verdade o pagamento se dá pelo “serviço” de administração e uso da plataforma em ambiente do prestador e não pela simples propriedade do código.

    Um ponto que me causa estranheza é o fato de tamanha resistência do Brasil na adoção do O.A. Somos praticamente líderes mundiais na adoção do software livre.

    Parece-me que funciona mais ou menos assim: como a maioria do software livre (linux, joomla, drupal, linguagens) são desenvolvimentos estrangeiros é adequado que seu uso seja livre. Já que a produção científica é produzida por nós é melhor que seja somente para o nosso uso. Sinceramente não acho isso justo.

    Comentário por Marcos Teruo Ouchi | agosto 12, 2011 | Resposta

    • Olá Marcos,
      obrigado pelos seus comentários, eles enriquecem a discussão sobre o OA. Existem diversos interesses envolvidos na manutenção do status quo que impedem a adesão brasileira. Haja vista a tentativa de desinformar a comunidade científica, em particular, e a sociedade brasileira, em gera. Vide a coluna Tendência/Debate publicada no dia 20 de janeiro de 2008, na página 2. Foi uma clara tentativa de desinformar a sociedade brasileira como um todo. O software proprietário é certamente um negócio que envolve algumas dezenas de milhões de dólares, mas esse negócio é distribuído entre diversos compradores e diversas software houses. No caso da publicação científica, ela envolve um negócio mais simplório, na ordem de 50 milhões de dólares anuais e envolve de um lado apenas uma organização e do outro algumas poucas editoras científicas. É esta a diferença. E devido ao poderio dessa organização, diversos interlocutores, incluindo ministros, têm medo de enferentá-la, mesmo sendo a favor do Brasil. Além disso, a comunidade científica é muito passiva e entrega ao poder público o dever de disponibilizar a informação de que precisa.
      Um outro fator interessante, o software livre teve a felicidade de ter uma organização pública importante na sua defesa e tomada de decisão na sua implantação no País. Já com relação ao Open Access, nenhuma organização vem atuando em sua defesa e todos os atores que poderiam defendê-lo têm medo da tal organização e seu presidente.
      Um abraço.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | agosto 12, 2011 | Resposta


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