Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Acesso livre: uma questão de racionalidade

No final dos anos 80 a comunidade científica global encontrava barreiras para o acesso à informação científica (IC) em conseqüência do constante aumento dos preços das assinaturas de periódicos científicos. Segundo a ARL – Association of Research Libraries, as suas bibliotecas membros tiveram um incremento de cerca de 321%, no período de 1986 a 2006 para manutenção de suas coleções de periódicos científicos . Neste mesmo período, o índice de preços ao consumidor nos EUA cresceu 78%. Embora sejam dados do cenário americano, o impacto dessa crise tem afetado a todos os países indistintamente.

No caso brasileiro, as dificuldades de acesso à informação científica foram amenizadas pelo fato de o governo federal manter o Portal de Periódicos da Capes e fornecer acesso às principais revistas científicas necessárias ao desenvolvimento das pesquisas nas universidades e institutos de pesquisa públicos brasileiro. É incontetável o pioneirismo dessa iniciativa, em nível mundial, a sua utilidade e os benefícios proporcionados à comunidade científica. É importante lembrar também que esse portal tem um custo que é bancado pelo governo federal.

Por outro lado, consequência das dificuldades apontadas, pesquisadores de várias partes do globo terrestre se uniram e organizaram em torno de um movimento chamado Open Access, que costumo traduzir para Acesso Livre. Este movimento propôs duas estratégias para facilitar o acesso à informação científica: a via dourada e a via verde.

A via dourada propõe que os pesquisadores publiquem preferencialmente em revistas científicas de acesso livre ou as chamadas revistas OA. Os editores então vêm desenvolvendo e implantando vários modelos de negócios para dar sustentabilidade a estas revistas. O modelo mais adotado tem sido aquele em que o autor paga pela publicação de seu artigo, que é chamado de modelo “autor paga”.

A segunda estratégia, via verde, recomenda que os pesquisadores que publicam em revistas não-OA, ou seja, que publicam em revistas que são acessíveis apenas mediante o pagamento de assinaturas, façam o depósito de seus artigos publicados em revistas com revisão por pares em repositórios OA.

Portanto, o pesquisador ou autor tem duas opções: 1) publicar em revistas OA; 2) publicar em revistas não-OA e fazer o autodepósito de seus artigos em repositórios OA. Portanto, o Pesquisador/autor tem opções e, tanto a primeira quanto a segunda permitirá à comunidade científica ter acesso aos resultados de suas pesquisas. Do ponto de vista de custo/benefício, obviamente, a via verde oferece a melhor relação custo/benefício.

Isto mostra que não é verdade o argumento apresentado em um artigo publicado na coluna TENDÊNCIA/DEBATE, no dia 21/01/2008, afirmando que o acesso livre custaria ao país US$ 24 milhões de dólares se todos os artigos brasileiros fossem acessíveis livremente. São estimativas infundadas e distante da realidade. Seria uma grande insanidade propor a todos os nossos pesquisadores que publicassem apenas em revistas OA.

O que se propõe ao País é a discussão e o estabelecimento de uma política nacional de informação científica com base nas estratégias do acesso livre. Ou, uma ação programada para implantação do acesso livre no Brasil.

A proposta inicial, e que fazia parte do PL 1120/2007, é que todas as universidades brasileiras e institutos de pesquisa públicos desenvolvam e implantem os seus repositórios institucionais. E, que, além disso, estabelecia o mandato tornando obrigatório que todos os pesquisadores dessas instituições autodepositassem os seus artigos publicados em revistas com revisão por pares.

Neste caso, talvez se possa questionar o custo de desenvolvimento e implantação desses repositórios, que a rigor não haveria necessidade de cada universidade ou instituto de pesquisa ter o seu repositório. Uma forma de amenizar o problema do custo seria que uma organização construisse um repositório central. Esta organização poderia ser tanto uma agência de fomento quanto um ministério ou instituição afiliada. Portanto, o custo do acesso livre no País não envolveria um investimento tão elevado.

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abril 13, 2011 - Posted by | Sem categoria | , ,

2 Comentários »

  1. Kuramoto,
    Seu blog continua sendo uma fonte inesgotável de conhecimentos. É com muito prazer que passo por aqui para atualizar minha leituras sobre o Acesso Livre!
    Abraços

    Comentário por Aline Ferrari | abril 14, 2011 | Responder

    • Oi Aline,

      obrigado pelo seu comentário. Que bom saber que pessoas tão vibrantes acompanham o meu blog. Isto é muito estimulante.

      Um abraço.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | abril 15, 2011 | Responder


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