Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

A via verde é a mais viável

Como foi mostrado no post anterior, no qual apresento algumas conclusões externadas por Stevan Harnad a respeito do relatório do estudo encomendado pelo Research Information Network (RIN), e que dá conta de que a estratégia que está sendo utilizada e que continuará a ser utilizada é a via verde. Esta estratégia recomenda que as instituições de ensino superior e de pesquisa construam os seus repositórios e estabeleçam mandatos tornando obrigatório que os seus pesquisadores façam o autodepósito, nos repositórios institucionais (RI), de seus artigos publicados em revistas com revisão por pares. Esta é a estratégia que oferece melhor custo/benefício.

A estratégia via dourada, recomenda que os autores publiquem em publicações de acesso livre e, consequentemente levou às editoras a desenvolver um modelo de negócio para manter suas publicações autosustentáveis, no qual o autor paga para que o seu artigo seja publicado e disponibilizado em acesso livre. Esta estratégia é cara. Não vale à pena.

A melhor solução é caminhar pela via verde, que não custa nada nem aos bolsos do autor e nem aos bolsos das agências de fomento, basta que o autor faça o autodepósito de seu artigo em um repositório de acesso livre da sua instituição e ele será acessado livremente. O Open Access para atingir os seus objetivos não depende das duas estratégias simultâneamente. Na realidade, basta a estratégia da via verde. É uma via mais rápida e não depende das editoras, mas, simplesmente da comunidade de pesquisa, especialmente dos pesquisadores e das universidades e instituições de pesquisa. Isto significa que tanto os pesquisadores quanto as instituições de ensino e de pesquisa estejam conscientes da importância desta iniciativa e dos benefícios que eles terão.

Ah…mas, aí vem uma outra pergunta: quanto custa construir um RI? Bem, o custo não é muito alto, nada que uma universidade não possa desenvolver com o seu próprio orçamento e seu próprio quadro de recursos humanos especializados. Além disso, trata-se de um custo único. É na realidade um investimento para a universidade, assim como comprar um livro ou assinar uma revista.

Hoje, toda universidade pública federal tem acesso à Internet via a RNP. Hoje, toda universidade tem um parque mínimo de computadores, com servidores gerenciando as suas redes. Portanto, a infraestrutura necessária já existe e não há necessidade de um investimento muito importante.

Falta desenvolver o RI. Para este RI, os pacotes de software para seu gerenciamento são livres, são software open source, portanto, tem um custo de distribuição igual a zero. Falta, assim, a parte mais dispendiosa, os recursos humanos. Normalmente, as universidades são dotadas de equipes especializadas tanto na área da informática quanto na área da informação. Evidentemente, que não esqueci que algumas dessas universidades perderam técnicos especializados ao longo dos últimos anos, por razões que não cabe aqui discutir.

Para desenvolver um RI é necessário que se tenha uma equipe especializada. Uma equipe mínima é constituída de um técnico especializado em processamento de dados e um de informação. É necessário sim, ter uma equipe para desenvolver e manter o RI. No entanto, esses dois técnicos não são necessários em tempo integral durante toda a vida do RI. Uma vez o RI implantado, não há necessidade de técnicos com dedicação exclusiva e em tempo integral. Assim, podemos dividir os custos para o desenvolvimento e implantação do repositório em duas partes: 1) a primeira refere-se ao desenvolvimento e implantação do RI; 2) a segunda refere-se à sua manutenção e gestão. Na parte 1 é desejável que os técnicos se dediquem em tempo integral e sejam exclusivos para o desenvolvimento e implantação do RI. Na parte 2, não há necessidade de se ter os dois técnicos em tempo integral, eles podem se dedicar a outras atividades ou projetos.

Um outro aspecto a considerar é que, hoje, já existem diversas metodologias de desenvolvimento e implantação de RI. Dentre estas, destaca-se a metodologia desenvolvida pelo projeto DRIVER da Nottingham University. Este projeto foi financiado pela Comunidade Européia e desenvolveu uma metodologia para construção de RI e, inclusive, os manuais estão disponíveis no seu sítio, tendo versão em língua portuguesa. Portanto, nao há necessidade de se reinventar a roda, basta adequar essa metodologia à necessidade de sua instituição. E, neste caso, o tempo de desenvolvimento é bem menor.

Assim, considerando a necessidade de um servidor dedicado para hospedar o RI. Um bom servidor capaz de suportar um RI custa na faixa de uns R$ 5 mil reais. Para trabalhar com segurança, é bom ter um servidor espelho. Portanto o custo inicial ficaria, por baixo, em R$ 10 mil reais.

Quanto ao custo para desenvolvimento do repositório, pode-se estimar que esta fase demore entre 6 e 12 meses. Nesse período, teremos um técnico de informática e um técnico de informação dedicados exclusivamente ao projeto do RI. Assim, considerando o custo médio de salários para cada um dos técnicos e o overhead devido ao pagamento dos encargos salariais, na faixa de 100%. Esse custo ficaria:
1 técnico de informática de bom nível, custa por mês R$ 7 mil reais;
1 técnico de informação de bom nível, custa por mês R$ 7 mil reais;
Estimando-se, por alto, 12 meses de desenvolvimento e implantação, o custo ficaria, assim:
2 x 12 x (7.000,00+encargos=7.000,00)…= 336.000,00
Aquisição de 2 servidores: 2 x 5.000,00….=   10.000,00
Total…………………………………………………….= 346.000,00

Então, este seria o custo de desenvolvimento e implantação de um repositório institucional. A manutenção não exigirá a participação de técnicos em tempo integral. A própria equipe da universidade poderá assumir o trabalho de manutenção e, portanto, não haverá nenhum custo adicional, o custo já está embutido no funcionamento normal da universidade, assim como o custo de manutenção dos servidores que se somará ao custo de manutenção do parque computacional. Desta forma, podemos arredondar para R$ 350.000,00 o custo máximo de desenvolvimento e implantação de um RI. Este é o montante considerando a contratação de técnicos externos e a aquisição de dois servidores novos. Neste caso, trata-se de um investimento e o cálculo foi realizado de forma a trabalhar com margens de segurança. Evidentemente, que o desenvolvimento e implantação de um repositório institucional a partir de uma metodologia pronta não leva os doze meses para ser concluído. Além disso, os salários foram definidos para profissionais em termos do mercado de Brasília, onde os salários são muito altos. Dessa forma, o custo pode variar de R$ 10 mil reais a R$ 350 mil reais, dependendo da situação de cada universidade e do seu mercado de trabalho. Mas, é preciso considerar que este custo é dividido em 12 meses, incluindo os encargos.

Por outro lado, as universidades normalmente têm outras formas de contratação de recursos humanos, através bolsas,que usualmente não tem nenhum encargo além do salário propriamente dito. Um outro fator interessante, as universidades são instituições formadoras de recursos humanos e, em muitas delas, existem bons cursos de processamento de dados ou sistemas de informação e também cursos de biblioteconomia. Dessa forma, o custo que estimei tende a ser superestimado. Digo isto porque já fui estagiário e sei como essas coisas funcionam. Muitas vezes um bom estagiário vale muito mais à pena que a contratação de profissionais por tempo determinado. Usualmente, os estagiários tendem a ser muito dedicados e engajados. Recordo-me que muitos dos profissionais terceirizados que contratei não tinham o mesmo engajamento e dedicação que os estagiários, e não foram poucas as vezes que esses profissionais me deixaram com a brocha na mão, ou seja, com o serviço inacabado. Essa é uma prática corrente e que merece muito cuidado nos processos de contratação.

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abril 12, 2011 - Posted by | Sem categoria | , ,

3 Comentários »

  1. Kura, parabéns! Que post memorável. Isto não é um post, é uma assessoria de política educacional, científica e tecnológica. Impagável. A via verde é a mais viável, sem dúvida, defendemos a via verde se o assunto é a divulgação. Gostaria de aproveitar seu post e colocar também o problema do financiamento das publicações, que precisaria mesmo ser melhor abordada. A via dourada, com o “author pays”, ainda não conseguiu fazer o debate público do que está por detrás dos altos custos de publicação. O envolvimento das tecnologias não estão exaustivamente justificados. Por exemplo, se foi possível oferecer uma alternativa como o SEER, com todos os recursos de pesquisa e disponibilização de objetos, o que faz de revistas que utilizam estes programas revistas menos caras ou menos exemplares? E uma vez disponibilizados os programas, a manutenção e continuidade deles é tão cara assim? No nosso país, as universidades federais, grandes responsáveis por publicações, são mantidas por fundos públicos. E quem atua nelas são servidores públicos, com salários adequados (ou não) às suas carreiras, inclusive os responsáveis pelas publicações. Em outros países, com sistemas mistos, cultura voltada ao comércio, pode ser diferente. Porém, além dos custos de manutenção, quais custos eles estão embutindo? De revisão? De tradição? De marca? Pensamos que as questões se respondem por si, porém, devem ser determinantes na formulação do problema, porque a via verde se determina pela publicação de artigos já publicados ou aprovados por pares para publicação, quebrada a barreira da propriedade dos artigos. O problema de financiar a publicação ainda persistirá e isto é um “fator oculto emperrador” da política se vista como um todo. Os repositórios precisam vir aliados com uma política ampla de comunicação científica, determinações claras no erário para tanto, transparência na elaboração e na execução da política. Abraço.

    Comentário por Ana Paula de Azevedo | abril 13, 2011 | Responder

  2. Kura, parabéns! Que post memorável! Isto não é um post, é uma assessoria de política educacional, científica e tecnológica. Impagável. A via verde é a mais viável, sem dúvida, defendemos a via verde se o assunto é a divulgação. Gostaria de aproveitar seu post e colocar também o problema do financiamento das publicações, que precisaria mesmo ser melhor abordada. A via dourada, com o “author pays”, ainda não conseguiu fazer o debate público do que está por detrás dos altos custos de publicação. O envolvimento das tecnologias não estão exaustivamente justificados. Por exemplo, se foi possível oferecer uma alternativa como o SEER, com todos os recursos de pesquisa e disponibilização de objetos, o que faz de revistas que utilizam estes programas revistas menos caras ou menos exemplares? E uma vez disponibilizados os programas, a manutenção e continuidade deles é tão cara assim? No nosso país, as universidades federais, grandes responsáveis por publicações, são mantidas por fundos públicos. E quem atua nelas são servidores públicos, com salários adequados (ou não) às suas carreiras, inclusive os responsáveis pelas publicações. Em outros países, com sistemas mistos, cultura voltada ao comércio, pode ser diferente. Porém, além dos custos de manutenção, quais custos eles estão embutindo? De revisão? De tradição? De marca? Pensamos que as questões se respondem por si, porém, devem ser determinantes na formulação do problema, porque a via verde se determina pela publicação de artigos já publicados ou aprovados por pares para publicação, quebrada a barreira da propriedade dos artigos. O problema de financiar a publicação ainda persistirá e isto é um “fator oculto emperrador” da política se vista como um todo. Os repositórios precisam vir aliados com uma política ampla de comunicação científica, determinações claras no erário para tanto, transparência na elaboração e na execução da política. Abraço.

    Comentário por Ana Paula de Azevedo | abril 13, 2011 | Responder

    • Olá Ana,

      obrigado pelo seu comentário e pelas excelentes colocações e questionamentos. O que acontece na realidade é que a nossa comunidade científica vive no mundo da lua e não tem a mínima noção do que acontece no mundo. Veja o link: http://www.capes.gov.br/servicos/sala-de-imprensa/36-noticias/2022, referente a um artigo publicado na coluna DEBATE da Folha do dia 21 de janeiro de 2008. O que foi escrito não foi dito por um pesquisador qualquer, mas pelos presidentes da SBPC, da Academia Brasileira de Ciência, e da Federação das Sociedades de Biologia Experimental, portanto, teoricamente três personalidades importantes da nossa comunidade científica. Então três personalidades escreveram em defesa do Portal de Periódicos da Capes contra o acesso livre utilizando dados que apenas demonstram desconhecimento do que ocorre em todo o mundo. É uma vergonha. Que defendam o Portal da Capes, perfeito! Mas, utilizar dados incorretos e decorrentes da ignorância sobre o OA é simplesmente alimentar a desinformação existente.

      Então o primeiro ponto a dizer é que o Open Access tem duas estratégias, a via dourada e a via verde. O OA não limita o pesquisador solicitando que publique única e exclusivamente em revistas OA. Muito pelo contrário, o OA vem recomendando que os pesquisadores continuem a publicar onde sempre publicou, mas que façam o autodepósito de seu artigo publicado em revistas com revisão por pares nos repositórios OA. Isto é tão simples quanto o verde das nossas florestas.

      Utilizem a via verde, é a opção que oferece o melhor custo/benefício. Então, no caso do Brasil, a recomendação é caminhar únicamente pela via verde, pois, hoje mais de 63% dos editores permitem o autodeposito dos artigos publicados em suas revistas em repositórios OA.

      Quanto aos custos de publicação, não tenho maiores informações. Certamente, uma revistas científica comercial têm os seus custos relacionados ao padrão gráfico, ao apelo comercial. Mas, não conheço nenhum revisor que receba pela revisão de artigos. A não ser que essas revistas agora estejam pagando para o revisor. Mas, eles têm o custo relacionados à arte gráfica, à editoração gráfica em si. O fato é que se justificam os altos custos de suas assinaturas. Isto é comércio, é business.

      Cordiais saudações.
      Kura

      Comentário por Helio Kuramoto | abril 13, 2011 | Responder


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