Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Pulverizando as barreiras entre pesquisa e publicação

Seguindo a tradição após a assinatura da Declaração de Berlim há 6 anos atrás, em novembro do ano passado foi realizado o Berlin 6 Open Access Conference, em Dusseldorf, Alemanha. Esse evento acontece todos os anos para conhecer, discutir e avaliar o estágio global do Acesso Livre em 2008.

O que chamou a minha atenção neste evento foi o painel 6:  Open Data and Reproducible Research: Blurring the Boundaries between Research and Publication. Esse painel tem a seguinte ementa:

Em muitos domínios científicos e técnicos, a pesquisa é cada vez mais baseada em dados publicados. Os pesquisadores também freqüentemente publicam instruções detalhadas executáveis ou mesmo procedimentos para reproduzir os seus resultados. Combinado com uma rede de computadores e de armazenamento de baixo custo, estas tendências podem acelerar radicalmente o ritmo da investigação, por intermédio da redução das barreiras ao acesso  e reduzir o tempo necessário para reproduzir e ampliar inovações. Essas mudanças também podem modificar o equilíbrio entre a coleta de dados e sua análise, e entre os trabalhos experimentais e teóricos. No entanto, esses desenvolvimentos são potencialmente revolucionários e acontecem, principalmente, de forma invisível, com progressos desiguais entre disciplinas, e pouca discussão geral sobre a forma de como coordenar e reagir ao processo. O objetivo deste painel é o de divulgar a experiência de várias comunidades que têm até duas décadas de experiência com o que Jon Claerbout tem denominado “pesquisa reproduzível”, e para começar uma discussão geral dos grandes implicações para as disciplinas científicas, técnicas e acadêmicas publicação.
Sergey Fomel (Universidade do Texas em Austin), lido por Mark Liberman
 
O fato é que em muitos países essas inovações já vêm ocorrendo no vácuo do movimento do acesso livre à informação científica. Tais inovações provocarão uma mudança radical de paradigmas na ciência, fazendo brotar uma nova maneira de se fazer ciência. Talvez essas inovações sejam um passo muito grande a ser dado por nós, uma vez que temos uma cultura totalmente diferente. Uma cultura onde a posse daquilo que se coletou é assumida por parte do pesquisador como sendo de sua propriedade. Quando, na realidade, a coleta desses dados só foi possível graças ao salário que o estado paga a esse pesquisador, assim como, os recursos que possibilitaram tal coleta em sua grande maioria serem provenientes de finaciamentos oriundos de recursos públicos. Portanto, os dados brutos de uma pesquisa deveriam ser considerados um bem público, de forma que outros pesquisadores possam ter acesso a eles e re-utilizá-los.

Bem, essa é uma polêmica que será levantada no momento em que essas inovações chegarem por aqui. Além disso, haverá aquele sentimento patriótico de não dar de graça, aos estrangeiros, os dados coletados pelos pesquisadores brasileiros. Ou em última instância, como algumas pessoas chegaram a dizer com relação ao acesso livre à informação científica, entregar os resultados de nossas pesquisas, gratuitamente, aos estrangeiros. Puro ufanismo, os resultados de uma pesquisa já são publicados em revistas científicas, portanto, apesar de acesso restrito, de relativa circulação em todos os países desenvolvidos. Não é o acesso livre que entrega esses resultados aos estrangeiros. Imaginem o que acontecerá quando essa onda de abrir os dados brutos à comunidade na internet? 

Apesar de tudo isso, vale à pena começarmos a refletir sobre essas inovações e seus impactos, vantagens e desvantagens. Certamente, o open data, promoverá: 1)economia no investimento em pesquisa científica, dado que isso evitará o financiamento do retrabalho; 2)a auditagem e maior governança sobre esses investimentos; 3)maior integração e interação entre grupos de pesquisa brasileiros e estrangeiros; 4)aceleração no desenvolvimento das pesquisas científicas; 5) maior quantidade de recursos (devido à economia na coleta de dados) para financiar outras pesquisas, etc.

 Taí um belo tema para reflexão neste início de 2009 e, portanto, uma ótima oportunidade para o Ministério da Ciência e Tecnologia estudar, discutir, refletir e empreender iniciativas semelhantes com o propósito de seguir a evolução da ciência no mundo, e absorver novas tecnologias da informação que as suportem.

 

 

 

 

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fevereiro 4, 2009 - Posted by | Sem categoria | , ,

3 Comentários »

  1. […] Sobre ← Pulverizando as barreiras entre pesquisa e publicação […]

    Pingback por IBICT antecipa PL 1120/2007 e promove implantação de RI « Blog do Kuramoto | fevereiro 6, 2009 | Responder

  2. Há um pouco ou muito de idealismo nisso.
    Sabemos que há pesquisas de cunho estratégico, e nenhum país vai querer abrí-las assim.

    Comentário por Rodrigo | fevereiro 14, 2009 | Responder

    • Prezado Rodrigo,

      concordo com vc, mas a proposta que temos discutido e vimos trabalhando trata dos resultados de pesquisa publicados em revistas científicas. Portanto, o que já foi publicado já está sendo disseminado pelas revistas científicas. Não estamos propondo nenhuma nova alternativa de publicação dos resultados. Se vc ler o PL 1120/2007 com mais cuidado, verá que esses casos de patenteamento ou segredo industrial estão protegidos. Nós não estamos interessados em disseminar esse tipo de resultado. A Espanha está discutindo um anteprojeto de lei que estabelece que toda a sua produção científica seja disponibilizada em acesso livre. Os EUA por intermédio do National Institute of Health já tem um mandato com os mesmos propósitos, tornar acessível livremente aquilo que ela financiou e que foi publicado em revistas científicas.

      Cordiais Saudações.
      Hélio Kuramoto

      Comentário por kuramoto | fevereiro 16, 2009 | Responder


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