Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Por que o acesso livre não decola no Brasil?

oaday_icon1Em todo o mundo, o acesso livre à literatura científica é uma reivindicação dos pesquisadores e estes contam com a colaboração das suas instituições. No Brasil essa bandeira tem sido empunhada apenas pelo Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict). Esse movimento parece não ser conhecido de nossos pesquisadores e tampouco de nossos dirigentes de instituições de ensino e pesquisa.

Enquanto em outros países, universidades como a de Harvard, a de Stanford nos Estados Unidos da América e a de Southampton na Inglaterra constroem os seus repositórios e estabelecem os seus mandatos, no Brasil temos pró-reitores de pesquisa e pós-graduação com medo de colocar os seus professores e pesquisadores contra a parede por conta de seu total desconhecimento das políticas editoriais de algumas das principais revistas científicas na área de Engenharia Elétrica. Esse pró-reitor, inclusive, não concordou em dar espaço para falar sobre acesso livre em um evento reunindo todos os pró-reitores de pesquisa. Qual seria o problema? Medo de enfrentar as discussões sobre o acesso livre? Ou seria medo de alguma agência de fomento?

Enquanto lá no exterior convivem diversos modelos de negócios no contexto do acesso livre, aqui no Brasil existe uma verdadeira competição, inclusive com a promoção da desinformação.

Enquanto lá nos EUA, uma agência de fomento (National Institute of Health) constitui o seu repositório central (PubMedCentral) e estabelece um mandato para que os pesquisadores financiados por esta agência auto-depositem os resultados de suas pesquisas publicados em revistas científicas, aqui o presidente de uma das principais agências de fomento fica preocupado com o custo de se colocar um trabalho em acesso livre. Uma outra, também,  conhecida agência de fomento recusa o apoio a uma pesquisadora para apresentar o seu trabalho versando sobre acesso livre por entender que essa iniciativa possa prejudicar o seu portal. Pasmem! Este parecer foi dado por escrito!

Enquanto países como a Austrália recomendam em seu relatório de revisão do sistema nacional australiano de inovação tencológica a disponibilização, em acesso livre, de todos os resultados de suas pesquisas, no Brasil existem dirigentes que têm medo de entregar os resultados das nossas pesquisas à comunidade científica internacional.  Que motivos levariam a esse medo?

Em outubro de 2006, o Ibict e a UnB convidaram as universidades mais representativas de cada região do País para formarem uma força tarefa em prol do acesso livre no Brasil. Foram convidadas: a Unicamp, a USP, a UFRGS, a UFRJ, a UFPE e a UFAm. Após duas apresentações mostrando os fundamentos e benefícios do acesso livre, todos os representantes dessas universidade se dispuseram a apoiar o acesso livre.  No entanto, após a construção de uma lista de discussão reunindo esses representantes, foram colocadas diversas questões relacionadas à construção de repositórios, estabelecimento de mandatos e protocolos de intenção. No entanto, não houve qualquer resposta desses interlocutores. Não houve qualquer manifestação.  Foi incrível, nenhum dos representantes se dignou a dizer um oi, ficaram mudos. O que teria acontecido após a reunião em que todos estavam exultantes com a iniciativa? Ficou novamente uma tremenda interrogação. O que poderia estar acontecendo? Medo de discutir a questão do acesso livre em suas instituições? Não entenderam os fundamentos do acesso livre?

O que este blogueiro depreende de tudo isso é que:

·         parece haver um total desconhecimento das iniciativas de acesso livre e dos seus fundamentos;

 

·         parece haver um total descaso, por parte das instituições, para com os destinos da ciência brasileira;

 

·        como venho dizendo há mais de quatro anos, as barreiras que impedem as ações do acesso livre de se avançar é resultado da total falta de interoperabilidade humana, cada um tem os seus interesses e poucos estão preocupados com o progresso da ciência brasileira, seja por medo, omissão ou outros interesses;

 

·         só haverá entendimento quando os nossos dirigentes – de universidades, de agências de fomento e outros – deixarem de lado: o medo, o clubismo, os interesses pessoais de poder;  

·         se deveria entender que as iniciativas de acesso livre não são privilégio ou obrigação apenas do Ibict, mas de todos os segmentos da comunidade científica conforme foi estabelecido no Manifesto Brasileiro de Apoio ao Acesso Livre Informação Científica;

 

·         o mundo todo avança em direção ao acesso livre à literatura científica enquanto o Brasil dorme em berço explêndido;

 

·         só haverá entendimento do e adesão ao acesso livre, quando os nossos dirigentes pensarem : no progresso da ciência brasileira, na maximização da visibilidade das pesquisas desenvolvidas em suas universidades; na maximização do uso e do impacto das pesquisas desenvolvidas em suas universidades; em dar maior transparência e governança nos investimentos realizados pelas suas agência de fomento. 

Nem tudo está perdido, uma vez que pelo menos uma agência de fomento acreditou na importância do acesso livre, apoiando o financiamento de dois projetos importantes que incluem iniciativas de acesso livre, a Financiadora de Estudos e Pesquisa (FINEP).

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novembro 23, 2008 - Posted by | Sem categoria | , ,

3 Comentários »

  1. Interessante suas colocações a respeito das barreiras que o Brasil enfrenta ao Acesso Livre. Essa visão retrográda, infelizmente, parece englobar todo o fazer ciência nesse país, sobre tudo, os interesses únicos.

    Comentário por Joel Martins Luz | novembro 26, 2008 | Responder

  2. Interessante suas colocações a respeito das barreiras que o Brasil enfrenta ao Acesso Livre. Essa visão retrógrada, infelizmente, parece englobar todo o fazer ciência nesse país, sobretudo, os interesses únicos.

    Comentário por Joel Martins Luz | novembro 26, 2008 | Responder

  3. Prezado Joel,

    Infelizmente não se trata apenas de uma questão de visão, mas de inércia, de medo. O poderio econômico de algumas instituições oprimem outras, as quais se mantém inertes e incapazes de lutar contra essa opressão e ter uma atitude mais ousada e que venham a beneficiar a ciência brasileira, aqueles que a fazem e as prórias universidades. O exemplo mais patente dessa inércia e medo é o fato de algumas universidades brasileiras se posicionarem contra o acesso livre por receio de colocar os seus pesquisadores contra a parede. Enquanto lá fora Universidades como as de Harvard, Stanford e Southampton estabelecem os seus mandatos ou políticas de informação aderentes ao acesso livre enfrentando as grandes editoras, as nossas universidades se curvam a esse poderio econômico composto por editoras comerciais e instituições públicas. Onde fica a tão propalada “autonomia universitária”? Como alcançar essa autonomia se nem sequer conseguem enfrentar a situação e buscar a sua autonomia?

    Comentário por kuramoto | novembro 26, 2008 | Responder


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