Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Acesso Livre + Portal de Periódicos da Capes = maior acesso à informação científica

Houve, algum tempo atrás, uma discussão sobre se as iniciativas do acesso livre ao conhecimento científico seriam antagônicas ao Portal de Periódicos da Capes, ou mesmo essas iniciativas acabariam com o Portal de Periódicos da Capes e, portanto, se ambas as iniciativas seriam excludentes. Ora, tratou-se de uma discussão tola e inútil: nada acrescentou e apenas mostrou a ignorância a respeito do movimento do livre acesso ao conhecimento científico, colocando ambas as iniciativas, inexplicavelmente, em lados opostos.

A manutenção do Portal de Periódicos da Capes é inquestionável, uma vez que a construção e manutenção desse portal são um dos maiores empreendimentos realizados no âmbito da informação científica no Brasil. A inexistência desse portal simplesmente enfraqueceria e inviabilizaria a pesquisa científica no país. É, portanto, um avanço indiscutível e que deveria ser blindado contra qualquer ação que objetive a sua exclusão.

É importante dizer que existem, no mundo, segundo estimativas apresentadas por Stevan Harnad, cerca de 25 mil periódicos científicos, incluindo revistas e anais de conferências, que possuem revisão por pares. Essas revistas publicam, anualmente, em média 2,4 milhões de artigos.

O movimento do livre acesso ao conhecimento busca tornar esses 2,4 milhões de artigos disponíveis livremente à comunidade científica, por intermédio de duas vias: ouro e verde. A chamada via ouro é caracterizada pela construção e manutenção de revista de livre acesso. Ou seja, o usuário tem acesso, livre de custos, aos artigos publicados por essas revistas. É importante lembrar que, no Brasil, existem diversas iniciativas que se enquadram nessa via. Exemplos: 1) Scielo; 2) revistas implementadas por meio da utilização do software SEER (Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas) que são de livre acesso; 3) revistas que vierem a ser implantadas por intermédio da INSEER (INcubadora de revistas do SEER). O Scielo possui hoje cerca de 180 revistas científicas nacionais, enquanto o software SEER, customizado e distribuído pelo Ibict, é atualmente utilizado por cerca de 370 revistas nacionais.

A segunda via, a via verde, é representada pelas iniciativas que promovem a criação de repositórios institucionais combinadas com o estabelecimento de mandatos, que obrigam os pesquisadores a depositar uma cópia do seu trabalho, tão logo selecionado para ser publicado por uma revista científica. No Brasil, existe um projeto de lei de nº 1120/2007 que determina a todas as universidades públicas construír o seu repositório institucional, tornando obrigatório que todos os pesquisadores de cada universidade pública depositem uma cópia do seu trabalho após ser selecionado para publicação em uma revista científica. Esse projeto de lei, mais do que simplesmente implantar a via verde, determina a criação de um comitê de alto nível para estudar, discutir e estabelecer uma política nacional de acesso livre à informação.

Os benefícios dessa lei não se resumem somente a promover o acesso livre à produção científica nacional, mas, também, dar maior visibilidade à produção científica brasileira. Além disso, a sociedade, de uma forma geral, poderá ter acesso aos resultados das nossas pesquisas, assim como o governo poderá avaliar os resultados dos seus investimentos em ciência, por meio da extração de indicadores a partir desses repositórios. Esses indicadores servirão para o planejamento da ciência no país. Portanto, esse projeto de lei resgata um sonho antigo daqueles que militam na subárea da informação científica e tecnológica: o registro e a disseminação da produção científica brasileira.

Considerando que todas as iniciativas mundiais envolvendo a construção de repositórios institucionais utilizam uma arquitetura baseada no modelo de arquivos abertos, os nossos repositórios poderão agregar registros de outros repositórios institucionais internacionais. O modelo chamado arquivos abertos concebeu um modelo de interoperabilidade que permite a integração de repositórios e arquivos que utilizam os seus padrões. Esse modelo se baseia em dois padrões principais: o Dublin Core, um conjunto de metadados, e o protocolo OAI-PMH (Open Archives Initiative – Protocol for Metadata Harvest), que permite a coleta de metadados em um repositório institucional compatível com os padrões estabelecidos por esse modelo.

Nesse modelo, existem dois grandes atores: os provedores de dados e os provedores de serviços. Os provedores de dados são aquelas instituições que mantêm um ou mais repositórios institucionais, local onde são depositados os trabalhos dos pesquisadores filiados a essas instituições. Os provedores de serviços são as instituições que fornecerem serviços de informação com valor agregado, por meio da coleta dos metadados de diversas instituições e de sua integração em um grande repositório central. Um exemplo desse modelo é a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD). A BDTD tem como provedores de dados as diversas universidades brasileiras que se integraram a ela, hoje, cerca de 74 universidades. Essa biblioteca tem como provedor de serviço o Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), órgão que mantém em seus servidores a BDTD, que é construída por meio da coleta dos metadados das teses e dissertações defendidas nas 74 universidades participantes da BDTD. O acesso à BDTD nacional permite o acesso às teses e dissertações defendidas em qualquer uma das 74 universidades, enquanto que o acesso local a cada uma dos provedores de dados possibilita apenas o acesso às teses e dissertações defendidas na respectiva universidade.

Diversos estudos estão sendo realizados com o propósito de avaliar o impacto que essa informação depositada em repositórios institucionais de livre acesso oferece comparativamente àquela impressa em revistas em papel, portanto de acesso restrito. Lawrence verificou em seu estudo, analisando artigos na área de ciência da computação, que os artigos on-line tiveram 336% mais citações que um artigo equivalente do mesmo autor publicado em uma revista impressa. O artigo que relata essa pesquisa poderá ser lido por intermédio do link: http://www.neci.nec.com/~lawrence/papers/online-nature01/ .

Estudos análogos têm sido realizados para avaliar o impacto do acesso livre em outras áreas do conhecimento. Tim Brody verificou que, em todas as áreas analisadas o incremento do fator de impacto variou de 25% a 300%, mas em nenhuma área do conhecimento essa comparação foi negativa, quando considerado o fator de impacto de um artigo depositado em um repositório de livre acesso em relação ao respectivo fator de um outro artigo publicado na mesma revista e que não tenha sido depositado em um repositório de livre acesso. Esses indicadores poderão ser vistos no link: http://eprints.ecs.soton.ac.uk/10000/1/tim_oa.pdf.

Esses exemplos mostram a medida do potencial desse novo modelo (modelo de interoperabilidade + iniciativas do movimento do acesso livre ao conhecimento científico) e a visibilidade que as tecnologias da informação e da comunicação proporcionam a um trabalho publicado on-line. Esses estudos mostram também que em um regime de acesso livre os artigos são citados mais cedo do que aqueles publicados em revista em papel. Portanto, verifica-se uma aceleração no desenvolvimento das pesquisas científicas.

Voltando à discussão inicial, é importante ressaltar que as iniciativas do acesso livre ao conhecimento científico e do Portal de Periódicos da Capes são, na realidade, complementares. Isso é um fato, pois esse portal dissemina cerca de 10 mil periódicos. Portanto, menos da metade da quantidade de periódicos estimada por Stevan Harnad. Contudo, cabe dizer que as iniciativas do movimento do livre acesso estão ainda no início e, portanto, dificilmente contarão com todos os 2,5 milhões de artigos anualmente publicados disponíveis para acesso público. Mas, deve-se frisar também que importantes universidades em todo o mundo vêm aderindo a esse movimento por intermédio da construção de seus repositórios institucionais e do estabelecimento dos seus mandatos de autodepósitos. Essa informação poderá ser comprovada acessando-se o sítio http://roar.eprints.org/. ROAR é o acrônimo de Registry of Open Access Repositories.

Avaliando as iniciativas no mundo e os dados apresentados nesse sítio, chegamos à conclusão de que não é possível desconsiderar as iniciativas do movimento acesso livre ao conhecimento científico. Verifica-se que países como os EUA, Inglaterra e a Alemanha, principais centros editoriais científicos mundiais, colocam-se entre os maiores hospedeiros de repositórios de livre acesso. O Brasil vem logo a seguir, em quarto lugar, razão pela qual enfatizamos o nosso propósito de continuar lutando pelo acesso livre ao conhecimento científico no Brasil. Os resultados advindos das iniciativas de acesso livre, em todo o mundo, permite concluir que são iniciativas sólidas e irreversíveis. No Brasil, em particular, pode-se enumerar algumas iniciativas sólidas como o Scielo, a Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações, o Portal Oasis.Br, as revistas científicas que utilizam o SEER, BDJur e BDComp, entre outros.

Finalmente, deve-se ressaltar que as iniciativas relacionadas ao acesso livre complementadas com portais como o Portal de Periódicos da Capes, representam maior acesso à produção científica mundial, em outras palavras, à informação científica como um todo.

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abril 4, 2008 - Posted by | Sem categoria | ,

3 Comentários »

  1. sei que aqui n e o lugar serto mas nos somos primos ate uns dias atras não sabia que os kuramotos eram tantos
    e estou muito feliz de saber que tem pessoas como voce e o Edson kuramoto em minha, nossa familia

    Comentário por Murilo kuramoto | abril 9, 2008 | Responder

    • Prezado Murilo,

      Obrigado por entrar em contato. É um prazer conhecê-lo e saber dessa ligação familiar. Podemos trocar mensagens, o meu email á: alokura2010@gmail.com. Será muito bom trocarmos mensagens e assim, nos conhecemos mutuamente, vc mora aonde? O que vc faz como atividade profissional? Vc morou e/ou trabalhou no Japão? Gostaria de conhecê-lo melhor.

      Um abraço.
      Helio Kuramoto

      Comentário por Helio Kuramoto | agosto 22, 2014 | Responder


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