Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

BDTD: uma questão de interoperabilidade humana? 2

Demorei, mas voltei. Infelizmente o dia tem apenas 24 horas e não se pode fazer tudo o que se quer. Esse tempo todo de inatividade no meu blog serviu para acompanhar os acontecimentos relacionados com o registro e a disseminação da produção científica brasileira, trabalhando loucamente em nossos ideais institucionais.

Verifica-se que, durante esses quase dois meses de inatividade no blog, nada mudou no país. Afinal, o MEC/Capes continua noticiando e fazendo a publicidade de seu banco de teses e dissertações, como se essa iniciativa fosse a oitava maravilha do mundo, desconhecendo as iniciativas do seu vizinho, situado no próprio governo federal. Aliás, para não dizer que nada mudou nesse país, antes dessa inatividade, o país vivia as expectativas de trazer o hexa. Hoje, o país respira as frutrações causadas pela perda do hexa e as expectativas de uma reeleição com um grande ponto de interrogação. Vive-se o marasmo e a apatia espelhada no comportamento dos milionários atletas de nossa seleção. Existe, no entanto, uma diferença, eles são atletas consagrados e, nós simples cidadãos à mercê de tomadas de decisões descabidas e inconseqüentes.

Seria louvável a iniciativa do MEC/Capes se a Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTD) não existisse. Essa biblioteca foi implantada no país, sob a coordenação do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), com o apoio da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).

Poder-se-ia imaginar que a BDTD fora pouco divulgada e que, em conseqüência, poucos tivessem conhecimento dessa iniciativa. Essa, no entanto, não é a questão, pois, a BDTD foi amplamente divulgada, tendo sido lançada oficialmente em dezembro de 2002, pelo então ministro de estado da ciência e tecnologia, embaixador Ronaldo Sardenberg, em solenidade realizado no auditório do Ibict, com a participação de vários reitores de universidades e diretores de bibliotecas.

Em 2004, eu, pessoalmente, estive na Capes, a convite do seu CTC, para ministrar uma palestra sobre a BDTD a todos os representantes de área. O resultado dessa reunião do CTC foi registrado em ata, sugerindo que a BDTD se tornasse o depósito legal das teses e dissertações eletrônicas. Os técnicos do Ibict participaram de diversos eventos, nos quais ministraram palestras e realizaram demonstração.

Como ignorar uma iniciativa que é classificada como sendo a segundo em todo o mundo em termos de quantidade de teses e dissertações eletrônicas registradas? (vide o site ROAR, no endereço: http://archives.eprints.org/?country=&version=&type=theses&order=recordcount&submit=Filter)

Por que investir em um outro banco? Esse novo investimento não fragmentará os esforços do governo federal? Como ficam as instituições de ensinso superior(IES) que já fazem parte da BDTD? (Hoje elas totalizam 28 IES, nas próximas semanas serão 63) Terão que manter atualizados dois bancos de teses? E quem paga por esse retrabalho?

As IES, assim como, todas os órgãos de governo estão sucateados, com quadros de servidores reduzidos face ao desmantelamento que essas organizações sofreram nos últimos 16 ou 17 anos. Apenas para se dar uma noção desse processo de sucateamento, o Ibict perdeu, nos últimos 16 anos, 160 servidores do seu quadro técnico-administrativo. Será que essas IES terão condições de alimentar os dois bancos? Imaginem os esforços que serão necessários, não apenas nas IES, mas também na Capes. Quem paga esses técnicos? Quem paga essa infra-estrutura tecnológica?

Aquelas IES que se integraram à BDTD têm uma grande vantagem, elas construíram os seus próprios bancos de teses e a BDTD diáriamente possui um mecanismo que visita a cada duas horas, de forma totalmente automatizada, todos esses bancos de teses locais (as BDTDs locais), coletando os metadados das teses e dissertações depositadas desde a última coleta. Portanto, a BDTD nacional mantém uma atualização diária. Aquelas que não se integraram ainda à BDTD terão o trabalho de enviar as teses e dissertações, por email, para a Capes e ainda, por cima, não terão o registro local dessas teses e dissertações, a não ser que elas implantem a sua BDTD ou utilizem as suas OPACs.

Concluindo, a implantação da BDTD enfrentou e enfrenta vários níveis de dificuldades: tecnológicas, culturais e políticas. As dificuldades tecnológicas foram superadas, restam as barreiras culturais e políticas. Portanto, verifica-se que se conseguiu o mais difícil, que era a interoperabilidade tecnológica, e esbarra-se na interoperabilidade humana, que é fazer com que os vários atores envolvidos conversem e compartilhem os seus interesses.

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julho 12, 2006 - Posted by | Sem categoria |

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