Blog do Kuramoto

Este blog se dedica às discussões relacionadas ao Open Access

Diferentes percepções….

Na última sexta-feira, dia 28/04/2006, foi possível observar como um mesmo fato pode levar a diferentes percepções. Foram postadas na lista bib_virtual@ibict.br diversas mensagens abordando a recente nota do MEC/Capes, publicada em 31/03/2006, dando orientações aos periódicos científicos brasileiros quanto à utilização de padrões, indicando o Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER) e o Scielo como soluções que poderiam ser utilizadas para a edição eletrônica de uma publicação periódica científica. O uso de uma dessas soluções contribuiria para uma melhor avaliação pelo QUALIS.

O Prof. Aldo Barreto de Albuquerque postou mensagem na bib_virtual@ibict.br observando que a nota da Capes : 1) interfere no formato das publicações eletrônicas nacionais, por meio da indicação de dois padrões para que estas pudessem ser avaliadas pelo QUALIS; 2) era uma solução que encareceria os custos de manutenção dos periódicos em meio eletrônico, uma vez que os dois padrões sugeridos pela Capes demandam uma extensa quantidade de memória do servidor que hospeda uma determinada publicação; 3) era uma restrição à liberdade de informação.

Em seguida, eu, Hélio Kuramoto, fiz alguns esclarecimentos, de cunho mais técnico, indicando que a nota da Capes, pelo menos no que se refere ao SEER, não provocaria os impactos de custo defendidos pelo Prof. Aldo. Ao contrário, o SEER não exige uma configuração complexa ou extensa de memórias, além de utilizar padrões internacionais, os quais estão de acordo com o modelo Open Archives, portanto, compatível com o movimento do livre acesso à informação. Portanto, essa orientação não constitui de forma alguma uma restrição à liberdade de informação. O que se tem verificado, ao longo do tempo em que o Ibict vem transferindo essa tecnologia para a comunidade editorial científica brasileira, é que o uso desse software tem promovido uma sobrevida às publicações periódicas científicas brasileiras, uma vez que muitas delas têm tido dificuldades na sua manutenção, em função do alto custo de gráfica. Além disso, essas publicações têm experimentado maior visibilidade, conseguindo aperfeiçoar-se e efetivamente serem referenciados por iniciativas internacionais como o Directory of Open Access Journals (DOAJ).

Dois outros pesquisadores, André Ricardo Luz editor da revista Arquivística.net e a Profa. Ursula Blattmann, corroboram com o posicionamento do Prof. Aldo. A profa. Ursula, inclusive, enfatiza a questão da exclusão social e científica provocada pela criação do Portal de Periódicos da Capes.

O grande problema, naquilo que concerne ao acesso à informação científica, é que, após a crise dos periódicos iniciada nos anos 80, a grande maioria das nossas bibliotecas não conseguem manter as suas coleções de periódicos científicos em função do alto custo de suas assinaturas. Essa dificuldade, evidentemente, não é um privilégio das bibliotecas brasileiras. As bibliotecas estrangeiras também vêm enfrentando esse problema. Foi em função dessa dificuldade que surgiram as seguintes iniciativas: 1) o modelo Open Archives, cujos padrões e protocolos foram estabelecidos pela Open Archives Initiative; e 2) o movimento do livre acesso à informação.

Portanto, a questão da exclusão social e científica é algo que antecede ao próprio portal, uma vez que nem todas as bibliotecas brasileiras conseguiam manter as suas coleções atualizadas e, portanto, nem todos os pesquisadores tinham acesso à informação de que tanto necessitam para as suas pesquisas. Concordo que esse portal não resolve todos os problemas.

As críticas da Profa. Blattmann, portanto, procedem, uma vez que esse portal não é disponível para todos os segmentos da comunidade científica, além da falta de uma política que possibilite às bibliotecas manterem importantes coleções de periódicos científicos, as quais vêm se perdendo.

No meu entendimento, a questão do acesso à informação científica só será completamente resolvida se todos os segmentos da comunidade científica brasileira se unirem ao movimento do livre acesso à informação científica e contribuírem para o estabelecimento de uma política nacional de acesso livre à informação.

Apesar disso, não podemos esquecer o importante papel do Portal de Periódicos da Capes, uma vez que esse portal promove o acesso aos principais periódicos necessários aos nossos pesquisadores para desenvolverem as suas pesquisas. Da mesma forma, é importante ressaltar a necessidade de maior discussão nos critérios e políticas de uso desse portal, de forma a evitar a exclusão social e científica, conforme observa a Profa. Blattmann. Nesse sentido, o desenvolvimento de serviços de informação, integrando o acervo de periódicos do portal, ao catálogo coletivo nacional (CCN) e ao Programa Comut, poderia dar maior amplitude ao portal e, portanto, maior utilização do seu acervo a uma comunidade maior que seria a totalidade da comunidade científica brasileira. Esse serviço ampliaria a comunidade usuária e a sua utilização, podendo, inclusive, promover o ressarcimento de custos ao referido portal, contribuindo, assim, para a sua manutenção. O que não se pode conceber é a manutenção do portal, como ele é hoje, hermético e estático, como uma biblioteca tradicional.

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abril 29, 2006 - Posted by | Sem categoria |

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